janeiro 25, 2012

Desde quando a ouvi pela primeira vez, há alguns anos, lá na Casa da Letra, me amoleceu a voz de Nneka (uma nigeriana radicada na Alemanha).

Adoro a mistura de ritmos e essa costura despretensiosa de Nina Simone, Fela Kuti, Lauryn Hill, Bob Marley…

Liberdade, grito e lirismo.


janeiro 22, 2012

Quando conheci a Flávia Péret, gostei dela no ato. Já era leitora assídua do blog Amarelando. Fiquei com vontade de usar uma narrativa (lírica, lindinha) na sala de aula. Na busca pela autorização, acabei descobrindo que era amigona da Letícia e da Lenise.

Meiga- idealista, Flávia não tem medo de acreditar nas suas ideias e sonhos. Segue em frente, sem se intimidar com academicismos mofados trajados de verdade. Uma Oxum guerreira, fã de Woody Allen  e Tim Burton.

‘Bora todo mundo lá no sábado então?…


janeiro 19, 2012

2012 não chegou sussurrando…

Exercício nº 4

Hilda Hilst

-

De espaço-tempo

De corpo e campo

Teu fundamento

-

E teu nome é matéria

Única. De estrutura

Infinitamente múltipla.

-

E seu teu vértice pousa

Te fazes igualmente

Em Delta. E repousas.

-

Em ti

Começaria a minha Ideia.

-

Exercício nº 7

Hilda Hilst

-

Vereis em cada círculo

Três dimensões de um todo

Aparentemente bipartido.

-

Alfa se refaz. É expansão

E é cíclico. Ômega se contrai

Em nova direção. Em essência

Alimenta-se

Daquela que é principio.

-

Mas sempre é o mesmo Ser

Num movimento líquido

De inspiração-expiração.

-

Sem finitude ou arbítrio.


dezembro 5, 2011

Todo mundo acha que pode, acha que é pop, acha que é poeta.
Todo mundo tem razão e vence sempre na hora certa.
Todo mundo prova sempre pra si mesmo que não há derrota.
Todo homem tem voz grossa e tem pau grande,
E é maior do que o meu, do que o seu, do que o do Pedro Sá
Todo mundo é referência e se compara só pra ver que é melhor.
Todo mundo é mais bonito do que eu mas eu sou mais que todos.
Todo mundo tem suingue, é feliz, é forte e sabe sambar.
Todos querem mas não podem admitir a coexistência do orgulho e do amor porque:
Eu sou melhor que você, Boa viagem.
Eu sou melhor que você mas por favor fique comigo que eu não tenho mais ninguém
Todo mundo diz que sabe e quando diz que não sabe é porque,
é charmoso não saber algo que todas as pessoas já sabem como é.
Todo mundo é especial, é original, é o que todos queriam ser.
Não basta ser inteligente, tem que ser mais do que o outro pra ele te reconhecer.
Todo mundo ganha grana pra dizer que ela não vale nada.
Todo mundo diz que é contra a violência e sempre dá porrada.
Todos querem se apaixonar sem se arriscar, nem se expor e nem sofrer.
Todas querem vida fácil sem ser puta e com reputação,
Se reprimem e começam a dizer:
Eu sou melhor que você.
Eu sou melhor que você mas por favor fique comigo que eu não tenho mais ninguém!

É melhor que você,
Mais ninguém é melhor que você.

Todo mundo acha que pode, acha que é pop, acha que é poeta.

Eu sou melhor que você, Moreno +2

Tão homem tão bruto tão coca-cola nego tão rock n’roll
Tão bomba atômica tão amedrontado tão burro tão desesperado
Tão jeans tão centro tão cabeceira tão Deus
Tão raiva tão guerra tanto comando e adeus
Tão indústria tão nosso tão falso tão Papai Noel
Tão Oscar tão triste tão chato tão homem Nobel
Tão hot dog tão câncer social tão narciso
Tão quadrado tão fundamental
Tão bom tão lindo tão livre tão Nova York
Tão grana tão macho tão western tão Ibope
Racistas paternalistas acionistas
Prefiro os nossos sambistas

A ponte de safena Hollywood e o sucesso
O cinema a Casa Branca a frigideira e o sucesso
A Barra da Tijuca Hollywood e o sucesso
Prefiro os nossos sambistas

Prefiro o poeta pálido anti-homem que ri e que chora
Que lê Rimbaud, Verlaine, que é frágil e que te adora
Que entende o triunfo da poesia sobre o futebol
Mas que joga sua pelada todo domingo debaixo do sol

Prefere ao invés de Slayer ouvir Caetano ouvir Mano Chao
Não que Slayer não seja legal e visceral
A expressão do desespero do macho americano é normal
Esse medo da face fêmea dita por Cristo é natural

É preciso mais que um soco pra se fazer um som um homem um filme
É preciso seu amor seu feminino seu suíngue
Pra ser bom de cama é preciso muito mais do que um pau grande
É preciso ser macho ser fêmea ser elegante

Prefiro os nossos sambistas.

Cinema americano, Rodrigo Bittencourt


novembro 21, 2011

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

 

A riqueza da diversidade, tão propagada pela mídia, principalmente  quando intenta vender uma imagem exótica e harmônica de um país pronto a ser rifado para o turismo sexual, opõe-se à desigualdade de condições. Como podemos celebrar a diversidade diante do contraste gritante e segregador, que teima em apartar seres humanos? Como podemos celebrar a diversidade se a própria vida recebe um tratamento tão perversamente desigual? Dados recentes do UNICEF revelam que uma criança indígena tem duas vezes mais chances de morrer do que uma criança branca. As crianças negras, por sua vez, tem 25% mais chances de morrer, antes de completar um ano de idade, do que as crianças brancas. A pobreza atinge 56% das crianças negras. Das 530.000 crianças que estão fora da escola, 62% delas são negras. As estatísticas retratam exatamente o lugar de exclusão destinado aos negros e indígenas brasileiros, bem como a insistência em estabelecer papéis sociais de acordo com a cor da pele – distorções que perpassam os discursos escolares, midiáticos, acadêmicos e sociais. Como bem sabemos, uma das formas de tornar um ser invisível é projetar sobre ele um estigma.

Um jovem pobre e negro caminhando pelas ruas de uma grande cidade brasileira é um ser socialmente invisível. (…) há muitos modos de ser invisível e várias razões para sê-lo. No caso desse nosso personagem, a invisibilidade decorre principalmente do preconceito ou da indiferença. (SOARES, 2005, p.175)

Quando estigmatizamos uma pessoa, a anulamos e vemos o reflexo da nossa própria intolerância. As caricaturas sociais, propagadas em instâncias diversas, inclusive oficiais, minam a possibilidade de discutirmos o racismo e primam por comemorar igualdades que nunca existiram no país.

Recentemente, uma pedagoga me encomendou um planejamento sobre Monteiro Lobato. Eu disse que não considerava o melhor momento para esse planejamento, visto que o autor está no centro das discussões sobre racismo, principalmente depois da divulgação de algumas cartas em que defendia abertamente a Ku Klux Klan. Sugeri um tanto de autores infanto-juvenis, entre eles o Bartolomeu Campos de Queirós e a Elvira Vigna, que são é incríveis! Ela não quis. (Por que as pedagogas adoram uma repetição?) Não contente em insistir, me enviou por email uma frase sobre tia Nastácia, feito uma ordem,  para que eu colocasse no estudo. Algo do tipo: diga apenas que ela é bondosa e que representa a cultura popular. Reducionismo pouco é bobagem. Não  topei, óbvio! Por que eu escreveria como autora uma frase que não é minha? Por que não questionaria os estereótipos que envolvem a personagem? Por que negligenciaria a perversidade sutil do discurso racista? Por que iria contra a minha ética? Por que divulgaria um estudo tendencioso, num momento tão rico de discussões sobre etnia e direitos humanos, em um portal de educação? Por que descumpriria com o meu papel de educadora? Sugeri, então, fazer um planejamento sobre o momento de fala da Emília, o contraponto da sua inventividade ao academicismo do Visconde. Ficou bacana, entreguei. Até porque não sou a favor da censura. Não deixei de ler Vargas Llosa só porque é um direitista. Mas também não sou a favor de gastarmos dinheiro público com a obra de Lobato, distribuída via MEC, nem tampouco com contos de fadas. Há um manancial literário aí, completamente relegado. E, afinal, com qual personagem a aluna negra deve se identificar? Com a Branca de Neve?

Mas, acreditem, a história não parou por aí. Essa coordenadora me ligou para “conversarmos”. Agradeceu meu posicionamento, disse que os supervisores concordaram comigo, que poderia até dar algum tipo de problema mesmo escrever daquele jeito. Entre as várias asneiras que proferiu muito calmamente, com sua vozinha de moça comportada, fã incondicional de Rapunzel, a que mais me aterrorizou foi: Ah! Entendi, você tem um problema pessoal com o autor! – ela respondia ao meu comentário sobre o massacre feito a Anita Malfatti. Ora! Quando foi mesmo que Lobato morreu? Problema pessoal? Verdadeiramente inacreditável! Ela não conhecia as polêmicas que envolveram a Semana de 22, nem as frases mais emblemáticas de Oswald e Mário. Muito menos a crítica implacável de Menotti Del Picchia, quando proferiu:  Somos todos contra os faquirizados, os lerdos, os repetidores, os plagiários inconscientes, os inertes, os inatuais, os passadistas. A arte é fruto da ambiência social e é sempre expressão do momento humano que vive. Essa literatura de múmias, essa estética de decalques, essa tessitura de artificialismos anacrônicos varremo-las, mesmo entre as vaias dos eunucos literários, a gritos escarlates de indignação e de batalha! Ela não sabia que Lobato e sua turma retrógrada, muito influente, usaram a mídia burguesa para desconsiderar os modernistas. Bem, isso lá no início do século 20! Nós estamos em 2011!!!

Eu já disse, né? A pedagoga coordena todo o material didático de um portal de educação!!! E, só pra variar, não sabe nada de nada. Para qualquer escritor, a frase é nunca ouvi falar

Eu perdi o sono naquela noite, e na outra. Fiquei brava, brava…depois triiiiisssssssste! Fiquei bem triste porque sei que esse discurso é insistente e perigoso, vem trajado de normalidade. E predomina, tanto nas escolas, quanto na academia…

Nunca mais recebi uma encomenda.

Entre as várias histórias absurdas que já presenciei nos colégios: Hora do recreio. Uma professora entra na sala dos professores às gargalhadas porque uma aluna do primeiro ano resolveu assumir um penteado Black. O assunto durou uma semana.

Ai, que banzo!

ATHAYDE, Celso; BILL, MV; SOARES, Luiz Eduardo. Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

BOAVENTURA, Maria Eugênia. (org.) 22 por 22. A semana de arte moderna vista pelos seus contemporâneos. São Paulo: Ed. USP, 2008.

Dados do UNICEF veiculados no vídeo Por uma infância sem racismo. http://www.youtube.com/watch?v=_aPYuKiKFMg  Acesso 02 out 2011.


novembro 20, 2011

EU, PÁSSARO PRETO

Adão Ventura

eu,

pássaro preto,

cicatrizo

queimaduras de ferro em brasa,

fecho o corpo de escravo fugido

e

monto guarda

na porta dos quilombos.

-

Dúvida

Esmeralda Ribeiro

-

Se a margarida flor

é branca de fato

qual a cor da Margarida

que varre o asfalto?

UM

Adão Ventura

em negro
teceram-me a pele
enormes correntes
amarraram-me ao tronco
de uma Nova África.

carrego comigo
a sombra de longos muros
tentando impedir
que meus pés
cheguem ao final
dos caminhos.

mas o meu sangue
está cada vez mais forte.
tão forte quanto as imensas pedras
que meus avós carregaram
para edificar os palácios dos reis.

-


novembro 5, 2011

A quem interessa acreditar em democracia racial? Em cordialidade? Por que ouvir La Lune de Gorée, de Gilberto Gil, ainda dói tanto?


As idades de Rosa Maria

Quando tinha seis anos, em 1725, um navio negreiro trouxe-a da África, e no Rio de Janeiro ela foi vendida.

Quando tinha quatorze anos, o amo abriu suas pernas e ensinou-lhe o ofício.

Quando tinha quinze, foi comprada por uma família de Ouro Preto, que a partir dali alugou seu corpo aos mineiros do ouro.

Quando tinha trinta, essa família vendeu-a para um sacerdote, que com ela praticava seus métodos de exorcismo e outros exercícios noturnos.

Quando tinha trinta e dois, um dos demônios que habitava seu corpo fumou pelo seu cachimbo e uivou pela sua boca e revirou-a no chão. E por isso ela foi condenada a cem açoitadas na praça da cidade de Mariana, e o castigo deixou-a com um braço paralisado para sempre.

Quando tinha trinta e cinco, jejuou e rezou e mortificou sua carne com cilício, e a mãe Virgem Maria ensinou-a a ler. Segundo contam, Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz foi a primeira negra alfabetizada no Brasil.

Quando tinha trinta e sete, fundou um asilo para escravas abandonadas e putas em desuso, que ela financiava, vendendo biscoitos (…)

Quando tinha quarenta, numerosos fiéis assistiam aos seus transes (…)

Quando tinha quarenta e dois, foi acusada de bruxaria e trancada no cárcere da igreja do Rio de Janeiro.

Quando tinha quarenta e três, os teólogos confirmaram que era bruxa porque conseguiu suportar, sem uma queixa, e durante um longo tempo, uma vela acesa debaixo da língua.

Quando tinha quarenta e quatro, foi mandada para Lisboa, para o cárcere da Santa Inquisição. Entrou nas câmaras de tormento, para ser interrogada, e nunca mais se soube dela.

GALEANO, Eduardo. Espelhos. Uma história quase universal. Porto Alegre: LP&M, 2008. p.155/156


outubro 31, 2011

Carlos Drummond de Andrade nasceu no dia 31 de outubro de 1902 e não morreu nunca mais

Diante de sua obra, sou aquela criança que quer adentrar, entre curiosa e amedrontada, a casa da doida, sou a adolescente que quer dinamitar a ilha de Manhattan, sou apenas um homem pequenino à beira de um rio…

À benção, poeta!

Museu da Inconfidência

 

São palavras no chão

e memória nos autos.

As casas inda restam

os amores, mais não.

-

E restam poucas roupas

sobrepeliz de pároco,

a vara de um juiz,

anjos, púrpuras, ecos.

-

Macia flor de olvido,

sem aroma governas

o tempo ingovernável.

Muros pranteiam. Só.

-

Toda história é remorso.

 

ANDRADE, Carlos Drummond. Claro Enigma. P. 287

Confissão

 

É certo que me repito,

é certo que me refuto

e que, decidido, hesito

no entra-e-sai de um minuto.

-

É certo que irresoluto

entre o velho e o novo rito,

atiro à cesta o absoluto

como inútil papelito.

-

É tão certo que me aperto

numa tenaz de mosquito

como é trinta vezes certo

que me oculto no meu grito.

-

É tudo certo e prescrito

em nebulosos estatuto.

O homem, chamar-lhe mito

não passa de anacoluto.

 

ANDRADE, Carlos Drummond. As impurezas do Branco p. 441/442

 

Cerâmica

 

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.

-

Sem uso,

Ela nos espia do aparador.

 

ANDRADE, Carlos Drummond. Lição de coisas. p. 403.

O descanso do poeta. Fotografia de José de Almeida e Maria Flores.

 

Os Ombros Suportam o Mundo

-

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

-

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

    Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

    mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

    És todo certeza, já não sabes sofrer.

    E nada esperas de teus amigos.

-

    Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

    Teu ombros suportam o mundo

    e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

    As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

    provam apenas que a vida prossegue

    e nem todos se libertaram ainda.

    Alguns, achando bárbaro o espetáculo,

    prefeririam (os delicados) morrer.

    Chegou um tempo em que não adianta morrer.

    Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

    A vida apenas, sem mistificação.

-

ANDRADE, Carlos Drummond. Sentimento do mundo. p. 131.

Antologia Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979.


outubro 28, 2011

Apaixonei-me pela obra do Cazuza aos 13 anos. Pedi para meus pais o LP Só se for a dois no aniversário de 14, ganhei!

Segui algumas das pistas do poeta da canção: fui ler Rimbaud, Clarice, Neruda… e não parei mais…

Certa vez, a revista Veja publicou, junto a uma foto esquálida, a seguinte manchete: “Cazuza. Uma vítima da Aids agoniza em praça pública.” Um horror! Chocado com a capa, Caju passou mal e foi hospitalizado. Os artistas se uniram, assinaram um manifesto contra aquele sensacionalismo.

Historicamente retrógrada, a revista já me causou repulsa várias vezes. Basta nos lembrarmos da cobertura das eleições de 1989… da briga sórdida com o Luis Nassif… da cobertura do referendo de 2005… da análise torta do filme Tropa de Elite… e por aí vai… Chegou ao requinte, num editorial, de chamar Che Guevara de porco imundo e de eleger para “embasar” o texto dois dos militares que perseguiram e assassinaram o guerrilheiro…

Reproduzo aqui o manifesto contra a última publicação da revista:

A Veja NÃO nos representa

O grupo que ocupa o Vale do Anhangabaú desde o último dia 15 de outubro para se manifestar contra o sistema político-econômico vigente recebeu com indignação a matéria de capa da edição de 26 de outubro da revista Veja. A matéria “Dez motivos para se indignar com a corrupção” demonstra mais uma vez a tendência conservadora do conselho editorial do grupo Abril, e sua prática de manipulação da informação pelo método de omissão e ênfase. A manipulação de símbolos é flagrante, por exemplo com o uso descontextualizado da imagem da máscara de Guido Fawkes, que se tornou símbolo dos levantes anticapitalistas no mundo todo, visando canalizar a insatisfação dos 99% da população para as pautas que interessam ao privilegiado grupo econômico da qual a publicação é porta-voz: o empresariado, sobretudo paulista.

É inegável que os movimentos autônomos que convergem em acampadas em cidades como Belém, Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, em consonância com os levantes internacionais, condenam qualquer forma de corrupção. Entretanto aquilo contra o qual lutamos é uma doença muito maior, a corrupção é apenas um de seus desagradáveis sintomas. A revista Veja usa suas páginas para atacar o Governo Federal e fazer “oposição” de Direita. Combater a corrupção como se fosse causa e não consequência é alimentar o mal ou, para dizer o mínimo, enxugar gelo. O sistema político vigente, as regras do jogo em si, é que propiciam, se não incentivam, práticas de corrupção.

Mas para além do desvio de dinheiro público por debaixo dos panos, existem outras formas de alocação de recursos públicos para interesses privados, como no caso da construção da usina de Belo Monte, que terá 80% do seu custo de R$ 30 Bilhões bancado com dinheiro público, mesmo que os únicos beneficiados com a obra sejam as empreiteiras e as empresas estrangeiras que exploram o alumínio na região Norte. Apenas 10% desse alumínio fica no Brasil; quanto aos lucros, a maior parte fica nas mãos dessas corporações transnacionais e de uma pequena elite política brasileira. Sobram para os brasileiros apenas a conta para pagar, e o sofrimento causado pelos impactos sociais e ambientais.

Outro modo de apropriação do Estado pelo interesse particular é a aprovação de leis como o novo Código Florestal, que tem sido tocado como o rolo compressor da bancada ruralista. O prejuízo ambiental será de todos, uma vez que todos terão menos oxigênio, nascentes de rios e biodiversidade. Enquanto os exportadores de soja, milho e cana, mais dinheiro em suas contas.

As acampadas anticapitalistas como a ocupação do Viaduto do Chá apelidada provisoriamente como Acampa Sampa contestam o sistema de Democracia Representativa, por entender que o povo tem o direito de participar diretamente da discussão e decisão políticas. Constatamos que os políticos não nos representam. Uma vez eleitos, representam apenas a seus próprios interesses e aos daqueles que financiam suas campanhas.

Entretanto é importante notar que o que Veja propõe não é uma transformação política que impeça tais práticas, mas, ao contrário, gostaria de ver os magnatas da indústria e comércio, marcadamente associadas a PSDB e DEM, no comando do Estado para arbitrar tanto quanto as elites agrárias às quais o atual governo petista se aliou.

Essa postura é evidenciada pelo fato de que a revista dá voz à Fiesp, mas não entrevistou sequer um dos participantes dos movimentos de “indignados” das ocupações públicas. A revista, que dá ênfase à corrupção no atual governo federal, não retoma os escândalos dos governos passados e apresenta propostas extremamente neoliberais como remédio para a corrupção. Veja chega colocar no mesmo balaio dos corruptos, também aposentados, pensionistas e pessoas que recebem bolsas do governo. O que Veja quer é defender a diminuição de gastos sociais e a demissão de milhares de funcionários públicos e diminuir a carga tributária paga por seus patrocinadores.

Veja tenta confundir o leitor, fazendo parecer que a sua luta específica contra o Governo Dilma e a favor dos empresários é a luta dos acampamentos de indignados. A Veja não nos representa. Nossa luta não é simplesmente contra o governo Dilma. Nossa luta é contra o Capital e os governos de um modo geral. Queremos a mudança do sistema e a transição para uma sociedade em que todos tenham vez e voz. Nossa luta é também contra os governos estaduais e municipais do bloco político sustentado pelo grupo Abril.

Nossa luta por Democracia Real é também uma luta contra empresas de comunicação manipuladoras do processo político, como a própria Veja. Enquanto houver essa democracia indireta e o capitalismo selvagem, haverá corrupção.

Não queremos um estado reduzido para ver o poder ainda mais concentrado nas mãos de empresários. Queremos o poder nas mãos do povo, e o povo plenamente livre, decidindo junto os destinos de suas comunidades. É por isso que não concordamos com qualquer reforma política que sirva para manter e aumentar o poder daqueles que já concentram poder, queremos a transformação completa do sistema.

Discordamos também quando a revista afirma que o Brasil não está em uma situação tão grave quanto a dos países europeus que enfrentam a crise do capital. O que acontece é que o Brasil se acostumou com a crise e com as suas gritantes contradições. Basta olhar a situação dos sem-teto, dos sem-hospital, dos sem-escola, dos sem voz em nosso país para ver que a situação do Brasil que cresce, cresce para poucos. Chegamos a essa situação não simplesmente por causa da corrupção, mas pela exploração do homem pelo homem, que já dura mais de cinco séculos.

Publicado originalmente em http://15osp.org/2011/10/26/a-veja-nao-nos-representa/


outubro 20, 2011

Exemplo


Um vendaval

despojou todas as folhas das árvores ontem à noite
com a excepção de uma folha
deixada
a baloiçar sozinha num ramo nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor –
gosta da sua piadinha de vez em quando.

Elogio dos sonhos

-

Nos sonhos

eu pinto como Vermeer van Delft.

-

Falo grego fluente

e não só com os vivos.

-

Dirijo um carro

que me obedece.

-

Tenho talento,

escrevo grandes poemas.

-

Escuto vozes

não menos que os mais veneráveis santos.

-

Vocês se espantariam

com minha performance ao piano.

-

Flutuo no ar como se deve

isto é, sozinha.

-

Ao cair do telhado

desço de manso na relva.

-

Respiro sem problema

debaixo d’água.

-

Não reclamo:

consegui descobrir a Atlântida.

-

Fico feliz de sempre poder acordar

pouco antes de morrer.

-

Assim que começa a guerra

me viro do melhor lado.

-

Sou, mas não tenho que ser

filha da minha época.

-

Faz alguns anos

vi dois sóis.

-

E anteontem um pinguim.

Com toda a clareza.

-

SZYMBORSKA, Wisława. Poemas. Trad. de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


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