eu fecho os olhos para escutar esconderijo
e a tarde gira furta-cor…
na contra-lógica do desafeto
e da pressa produtiva cotidiana,
há quem seja de verdade,
há quem ame de verdade.
nem todo mundo é de plástico
há quem seja
a própria voz
no-corpo-amiúde-
lira-vaga-de-uma-constante-interrogação
ouça-veja-sinta-
…
http://www.myspace.com/anacanas
Ruy Castro, a enormidade de erros que envolvem a prática escolar brasileira ultrapassa os absurdos revelados no seu texto Ao mestre, com desprezo, publicado na Folha de São Paulo, 13 de outubro. (Reproduzido abaixo). A relação entre professor e aluno há muito está em ruína, e como não estaria se as próprias instituições escolares e governos sequentes desrespeitam seu corpo docente? Curioso é que investir em educação é um jargão certeiro para alcançar o poder…
Não é nenhuma novidade o fato de doutores serem demitidos por terem direito a salários mais altos. A superlotação das salas não é mais paisagem da escola pública; pais de classe média pagam altas mensalidades para seus filhos ficarem espremidos com mais 49 colegas. Pedagogas, completamente ultrapassadas, leitoras superficiais de Piaget, criam regras impossíveis – impostas como soluções mágicas. Isso quando não inventam aquelas dinâmicas estúpidas que só servem para gerar constrangimento e risinhos. São burocratas apoiadas em discursos vazios e livros de auto-ajuda, redigem cartilhas da verdade para professores de todas as áreas. Detalhe: elas não sabem nada de nada sobre as áreas que coordenam. A própria arquitetura das escolas, semelhante à dos cárceres, não contribui para uma relação harmoniosa.
A violência física, Ruy, acaba por revelar o valor social dado aos professores. Ganham mal e trabalham muito. Para os alunos, são simplesmente o reflexo do insucesso. Representam tudo o que eles não querem ser. Não têm carro do ano, não vestem roupas de marcas consagradas e trabalham nos finais de semana, corrigindo provas, preparando aulas…Os de redação são ainda mais desafortunados, estão sempre com pilhas de textos para corrigir. Num tempo que nem a matemática explica. Mas como não dar conta? O dia do professor tem mais de 24 horas!!!
Professor não pode ser velho, não pode ser gordo, não pode ser negro, não pode ser gay, não pode ser solteiro, não pode ser divorciado. Precisa frequentar festas de final de ano e cumprir o padrão de uma família papai-mamãe, que quase não existe mais. Para algumas escolas, ele tem que ser meio palhaço ou um bom piadista. Afinal, deve garantir o circo e as matrículas do ano seguinte. Ah, é preciso mencionar: as siliconadas e louras estão em alta no mercado, prendem a atenção!
Para muitos alunos da rede privada, o professor não passa de mais um empregadinho; são clientes imaturos com muito poder nas mãos. Para muitos da rede pública, ele é o fracassado que não conseguiu emprego em escolas particulares.
Sem respeitabilidade social, o professor adoece, e a sociedade não fica atrás. As estatísticas são alarmantes. Por um lado, depressão, alcoolismo, síndrome do pânico. Por outro, milhares de analfabetos funcionais, anti-cidadãos e profissionais incompetentes. As avaliações de ensino médio e superior revelam os alunos que não foram durante anos. Afinal, passaram boa parte da vida escolar com seus iPods – acobertados por diretores e coordenadores.
*
No meio do turbilhão de problemas que envolvem a educação, algumas manifestações são dignas de nota.
1-Leda Martins, uma professora querida da FALE-UFMG, certa vez me perguntou por que eu tinha perdido tanta aula. Respondi, meio constrangida, que era porque não tinha dinheiro sequer para a passagem de ônibus. Estava desempregada na época. Ela se ofereceu para me buscar em casa, simplesmente do outro lado da cidade. Fiquei tímida e comovida. Não cheguei a precisar da carona, arrumei emprego na semana seguinte. Mas posso dizer que foi um dos gestos mais generosos e doces por mim experimentado.
Fora o gesto, algumas aulas da Leda foram memoráveis: A leitura da impossibilidade e do oxímoro na obra Esperando Godot, de Beckett; as análises de Senhora dos Afogados, O beijo no asfalto; a circularidade em Borges…
2-Um aluno muito muito simples, pedreiro, com quase 50 anos, chamou-me um dia e disse baixinho. “Você me fez ler Graciliano Ramos, nunca vou me esquecer disso. Obrigado.”
3-As aulas de Maurício Salles Vasconcelos (todas!!!) subverteram a previsibilidade chata da academia. Um grande leitor, que me ensinou a ler Gertrud Stein e Wallace Stevens, entre tantos outros.
Fundamental para o nascimento do Poesiahoje e para alguns momentos deliciosos que vivenciei com o Julius, a Lenise, o Leo, a Letícia, a Lu e o Michel.
4-Luis Alberto Brandão, com sua sensualidade barthesiana, escreveu Tablados. Precisa mais?
5-Conheci duas pessoas, no Estadual Central, fundamentais para a minha vida, Janaína e Valdir.
6-Sérgio Bueno foi meu professor de literatura no Estadual…ele gostava dos meus textos e me encorajava. Nunca vou me esquecer da sua aula sobre Capitu. Ele chegou a subir na mesa, tamanha empolgação.
7-Um aluno da comunidade da Ventosa veio à minha casa para conhecer meus livros; escolheu Marguerite Duras e se apaixonou. Quem disse que requinte depende de classe social?
8-A aula de Alexandre Amaro e Castro sobre Recado do Morro, de Guimarães Rosa…as palavras saíam coloridas da sua boca, as veredas de repente estavam ali…e Guégue e Catraz perambulavam entre a turma, dizendo maluquices e nos revelando ao mesmo tempo…lembro-me de olhar para o quadro e enxergar azul-e-verde e de quase sentir medo. Cheguei em casa tarde da noite e tive uma insônia daquelas…o Morro da Garça me acompanhou madrugada adentro…vida afora.
9-Não posso deixar de mencionar os alunos desse ano, empenhados, sérios, determinados…pela primeira vez não quero jogar o despertador longe..Sarah, sua energia contagiante, e a densidade de ler Munch e Pondé…Fernando e seu texto primoroso, é sempre disponível, educado e humilde diante do saber…Lorena, com seu cabelo de girassol, ilumina a sala, sorri com os olhos e sabe crescer…Diego e seu talento intertextual, paródico, imagético…Lívia, Fabíola e Marina imprimem particularidade e lirismo num mundo de rótulos e tribos, cada uma a sua maneira…Thiago sorri para dentro, de tão tímido, mas tem um texto poderoso que revela o que quase ninguém vê…João e sua ousadia preguiçosa, escreve de vez em quando e sempre acerta, sempre surpreende…Bárbara escreve com a mesma simplicidade e naturalidade com que se apresenta na sala, sem máscara ou maquiagem…Bernardo devora metáforas e não teme as entrelinhas…Joana tempera o texto, sabe que o bom português tem dendê e salsa…
*
Ao mestre, com desprezo.
Ruy Castro
RIO DE JANEIRO – Em março, um professor de história, filho de um amigo meu, foi desacatado em sala por três alunos num colégio em Moema, zona sul de São Paulo. O mestre deu queixa na diretoria. Esta apoiou os desordeiros. O professor pediu demissão e foi para casa, onde teve uma crise nervosa. Passa agora por uma síndrome do pânico. A orientadora da escola, única pessoa a apoiá-lo, foi demitida.
Este é um colégio de classe média, em que os alunos se sentem com privilégios pelo fato de pagar altas mensalidades. Mas, nas escolas públicas, a realidade é ainda pior. Mais de cem casos de alunos que desrespeitam professores são relatados diariamente à Secretaria Estadual da Educação de São Paulo por um sistema de registro de ocorrências do gênero. A maioria dos casos vem da região metropolitana de São Paulo.
São alunos que desprezam a liturgia da escola, saem da sala sem autorização do professor e o ofendem verbalmente quando ele ousa protestar contra a zorra. Usam toda espécie de aparelho eletrônico durante a aula, de celular a iPod, e, certos da impunidade, destroem equipamentos ou instalações da escola na frente dos colegas e funcionários. Uma das principais diversões é pôr fogo nas lixeiras.
É o terror. As escolas cogitam instalar câmeras em suas dependências, para ter provas documentais contra os vândalos e padronizar as informações, o que permitirá estabelecer estratégias de combate à violência. Mas nada impede que os cafajestes – difícil chamá-los de alunos – roubem também as câmeras e riam das estratégias.
Os jovens valentões que agrediram o professor em Moema (aliás, com o apoio da classe) foram expulsos do colégio meses depois. Mas não por indisciplina. Deixaram-se apanhar traficando drogas dentro das instalações.
Sou um homem comum
Qualquer um
Enganando entre a dor e o prazer
Hei de viver e morrer
Como um homem comum
Mas o meu coração de poeta
Projeta-me em tal solidão
Que às vezes assisto
A guerras e festas imensas
Sei voar e tenho as fibras tensas
E sou um
Ninguém é comum
E eu sou ninguém
No meio de tanta gente
De repente vem
Mesmo eu no meu automóvel
No trânsito vem
O profundo silêncio
Da música límpida de Peter Gast
…
De Caetano Veloso
palavra açucena, nêspera, manhã:
Fabiana Cozza!
movimento que se alastra entre o que há de azul e lilás
no corpo da voz
e tudo o que dela emana:
força estranheza pulsação
uma sabedoria dos velhos e velas
que alumiaram nossos caminhos e nossas horas tristes
que guardaram um pouco do que somos
séculos afora
– estalam chibatas ecoam tambores –
vórtice e vertex
o eixo
entre a voragem dos sentidos,
água sal-e-doce sereia e vendaval
fraseado que baila, vibra, ouro e prata,
filha de Oxum e de todas as Aiabás
numa pletora das águas
– intensa-vibrante -
vicejando tambores e benção ancestrais.
http://www.myspace.com/fabianacozza
amanhã dezessete de setembro. você faz trinta e cinco anos. mas sei que ainda se lembra de quando foi ouvir o lp de Adriana Calcanhoto lá em casa… era mesmo um grande barato ouvirmos juntas A fábrica do poema e atravessarmos tardes inteiras tecendo segredos e suspiros inconfessos. insuspeitáveis? claro que não. todos sabiam dos nossos olhos pulando zíperes e constelações despedaçadas, dos nossos corpos colados no abraço de meia hora respirando nuvens e cataclismas. eu vivia sempre febril aos domingos. inventava motivos pra chegar domingo e ele se demorava preguiçoso entre os dias apressados de pagar as contas e fazer a feira e colocar ordem na casa. quando chegava, se esparramava na rede a nos balançar trechos inteiros de Waly e Augusto de Campos. lia muito a Duras na época, e sentia extrema vergonha de tudo, até do cheiro bom de avelã molhada, cravo da Índia e guimba pelos cinzeiros. tudo inexistia de repente para você passar…entre êxtase e romantismo bêbado…sua voz de arrancar o couro e fazer as moças suarem por debaixo das saias. sua voz entre flor de pêssego e cal. uma cosmogonia dilacerante. sargaço e sertão. rosa e urucum. desalinhando, trazendo fúria aos homens de bem, desconsertando. muito papai com dor de cabeça. e veras lúcias e lias… alamandas ultrapassando os limites da jardineira, numa rua triste, num bairro qualquer da cidade de Belo Horizonte.
papos intensos, e uns aguados de malva…quantas noites viradas? dentro; do avesso; às gargalhadas; taciturnas quietas ensimesmadas?… Augusto de Lima, Bahia afora… um rapaz ajeitou o peitinho falso antes do número, sorriu feito Marilyn, ele-ela lindo, lindos assim num só… na parada de dois mil e dois um senhor sorridente, batom-glitter, me tascou um beijo na boca, entre uma cerveja e outra uma Cinderela negra, 1metro e oitenta e seis de altura, ajeitou meu cachecol azul-e-verde, sem descer do salto, e arriscou uns passos de tango. beijo livre-purpurina em plena Praça Sete, duas da tarde… as fofoqueiras de sempre do conjunto Cristina, a cochichar a vida dos outros, a coragem dos outros, a alegria dos outros, seguiram o poeta Jairo Rodrigues – meio Clara Nunes meio Caju – avenida Afonso Pena afora. braços abertos e sorriso escancarado. ele é o cara mais autêntico e sensual que eu conheço. no quintal de sua casa, vem, eu vou pousar a mão no seu quadril, susto e delícia… fita o céu, roda…
muita cachaça e poesia. caramelos e rapazes à mancheia.
e nós.
lentes caducas enferrujaram o olhar. quem mesmo consegue ver essas duas meninas, filhas de Iansã e Iemanjá? quem enxerga esse azul?
compromissos e namoradas mornas apenas adiaram novos vendavais.
olho d’água pedra mórula ferida
aguarrás adentro
não, não se preocupe com o que é dito; o eu é ficcional, como não seria? por que explico o óbvio? eu não existo, apenas o eu aqui. e só porque a tarde entre edifícios traduz minha melancolia que pulsa. pulsa. hoje ouvi Cole Porter por longas horas e entendi a obsessiva condição humano-melódica de Night and Day…travessia que modula. um olho cego fixo no instante, o outro que vê. amanhã você faz trinta e cinco anos. e a trilha é So in Love, com Caetano. sempre Caê. por quê? alguns perguntam. porque ele ilumina a sala no filme de Julio Bressane. porque ele escolheu o nome Maria Bethânia. porque ele irrita e incomoda a mediocridade quadrada da imprensa. porque ele é NeideCandolinatotal. porque ele é doce quando áspero, é tropicalista quando a juventude era de um esquerdismo radical e tolo. porque não se apóia em nacionalismos chatos e previsíveis. porque compôs entre tantas outras Vaca Profana e O Quereres. porque Transa e Circuladô de Fulô. porque lê Clarice, ouve João. porque é contraditório e exato, prolixo e preciso. porque ele é ela, é outra sem rótulos. porque é esse cara, e ama Chico Buarque. porque canta lindamente Cais. porque cantou Cazuza e fez o Brasil ouvi-lo de outro modo, porque fez Escândalo pra Rô Rô e Gatas Extraordinárias pra Cássia. é um grande leitor. é filho de dona Canô, é de Santo Amaro e fez David Byrne tremer as pernas no Carnegie Hall. porque é pai de Moreno, e ri um riso grande enorme sincero no rosto magro sempre no último acorde. porque toca mal o violão e faz disso um estilo, um diálogo, uma marca. porque o coração é vagabundo, porque um monge tibetano ouve a canção pela manhã. porque eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem, apenas sei de diversas harmonias bonitas, possíveis, sem juízo final.
porque você é que é o ioiô de iaiá…
Acho que Baudelaire dizia-se “um homem sem profissão”. Sinto-me orbitando ao redor do que ele dissera.
O percurso díspar de minhas incursões escolares (Direito, Letras, Psicologia, Gerontologia, Contabilidade, Magistério e Eletrônica) informa um pouco sobre mim.
Profissionalmente, a sala de aula, o consultório, o escritório, a instituição bancária, a fala do palco e o Órgão Público de Cultura também depõem a meu respeito.
São muitos vieses. Daí minha confusão diletante.
Irresponsavelmente apaixonado pela palavra (escrita e emitida). Código e substância. Mínimo e exuberância. João Gilberto e Maria Bethânia. João Cabral e Waly Salomão. Caetano Veloso. A contenção e a desmesura.
Não é lindo que:
Referências tantas num corpo de subjetividade real e dialética já que eu não sou de ferro.
Palavra que cumpra a função de comover, desorientar, deixar perplexo, deixar em riste.
É a partir do que eu dissera que encontra-se o que escrevo.
Por Robson Santos
Hélio Oiticica, este homem-poliedro em estado de permanente intensidade, amalgamou cosa mentale e transe instintivo genital em que a obra espelha o paroxismo do prazer (teu amor eu guardo aqui), dança do intelecto e dilaceração dionisíaca, obsessiva ideia de fundar uma nova ORDEM frente às categorias exauridas da arte e a indignação da rebeldia ética, a quase catatonia do Quase Cinema e o júbilo epifânico (reino do SUPRASENSORIAL) do ÉDEN, num todo múltiplo, totalidade indivisível vida/obra. Oiticica foi movido pela legenda EXPERIMENTAR O EXPERIMENTAL, tensionou a si mesmo enquanto campo imanente de possibilidades SÍSMICAS e se metamorfoseou em vertigem, voragem, redemoinho. VÓRTEX. Na linha abaixo do Equador.
A fecundidade de HO deriva da tensão pendular transgressão/construtivismo.
Nova sensibilidade explodindo a velha sintaxe conformada/conformista.
Waly Salomão