dezembro 30, 2010

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa —
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol —
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue — peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas — ela —
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

HELDER, Herberto. Ou o poema contínuo.

São Paulo: A Girafa Editora, 2006.

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dezembro 16, 2010

 

Poema boavesco saindo do forno direto para o 1claroenigma, um privilégio, uma honra, uma delícia…


poema-frisson


meu olho não quer saber

o que desata todos os nós

na calada das noites


ele só pisca ao sabor de palavras frenéticas

e da filosofia dos poros

que bota tudo às favas


meu olho bimotor tritura alhos e bugalhos

e o som de sua fúria se exalta

ao ver esse olho que o lê

flávio boaventura

bh, dezembro de 2010.


dezembro 1, 2010

 

(…) um dia, no alto da catedral de Gaudí,

chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.

Fiama Hasse Pais Brandão