abril 27, 2013

A Júlia é uma aluna querida, singular, do tipo que quando falta à aula, a sala parece vazia e triste. Tem um atrevimento que incomodaria os professores mais conservadores, que existem aos montes por aí nas escolas católicas da cidade, mas que me encanta porque não se assemelha à arrogância, mas à sabedoria e à vontade de dizer o que sente e pensa. Ela não faz coro com esses menininhos ricos que tratam os professores como empregadinhos e cutucam o celular a aula inteira. Chicobuarqueana – ou seja, um diamante no decadente reinado de Gusttavo Lima – sabe ouvir e transformar essa escuta em aprendizado, sabe falar e questionar velhos e mofados argumentos. E, claro, sabe escrever.

Publico esta redação – nota máxima na prova da Cesgranrio – porque é ousada e se contrapõe à cartilha comum dos professores (medíocres) de cursinho, cheia de privações e mitos. Eu sou conhecida justamente por detestar essa cartilha e por ensinar como usar as diversas possibilidades formais para que se alcance um texto consistente. Sinto horror a esse discurso comum de que não se pode usar metáforas ou metonímias…blá blá blá…

 

A terceira margem do rio

 Júlia Lima

Deixei a terapia e uma pergunta feita pelo meu psiquiatra não me saiu da cabeça durante a longa volta para casa: o que eu poderia fazer para realizar meu ideal?

Sou filha do capitalismo e da globalização. Moro no Brasil, tenho amigos no Japão e as reuniões do escritório são em francês. Tenho o carro novo na garagem, a tecnologia do momento na bolsa, as melhores grifes no closet e sempre quero comprar aquilo que ainda não foi inventado.

Sou Dorian Gray. Quero beleza e juventude eternas e, para tanto, vendi a minha alma e me associei a uma clínica de estética. Sou perfeita por fora, mas tranquei no sótão escuro e úmido, debaixo de panos velhos, o retrato que esconde todos os meus pecados, minhas fraquezas e minhas misérias. Eu sou a casca perfeita.

Sou a personagem de George Orwell. Sinto-me vigiada todos os dias, o dia todo. Não importa para onde eu vá, ou o que faça, o Grande Irmão está lá, sempre olhando para mim.

Vivo em um tempo no qual as distâncias não existem, em que ter tudo ainda é pouco e onde a beleza e o dinheiro ditam os modos de vida e as regras da sociedade. No meu mundo, as pessoas não mais se tocam, não mais se importam e os sonhos são vendidos em prateleiras de supermercados. Não me encontro e não me encaixo em lugar nenhum, a pergunta é: o que eu posso fazer para realizar meu ideal, se eu sequer sei o que isso significa?

Farei, portanto, como o personagem de Guimarães Rosa: vou continuar aqui, vivendo desse jeito, nesse mesmo mundo, e, quando já estiver velha e cansada de tudo e todos, vou construir uma canoa e me mudar para a terceira margem do rio em busca de um lugar só meu. Em busca apenas de um pouco de paz.

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abril 15, 2013

Quando vejo na televisão um tremor de terra em algum país, de maneira fulminante não apenas tomo consciência daquele tremor de terra, mas sou quase que impregnado pela língua daqueles que foram atingidos, pela sua maneira de viver, por tudo aquilo que foi perdido (…) Sou impregnado por tudo isso e é por isso que digo frequentemente que o escritor contemporâneo, o escritor moderno, não é monoglota, mesmo se conhece apenas uma língua, porque escreve em presença de todas as línguas do mundo.

(Édouard Glissant)


abril 11, 2013

Sempre que posso, dou um pulo no blog do Sakamoto, que é um cara brilhante e tem um jeito de escrever direto e simples. Sei o quanto é difícil atingir essa simplicidade com consistência. Não resisti e (re)publico este texto sobre a classe média, a mesma, que, com seus carros prateados, em váaaaaarias prestações, “desconhece” sinal de pedestre, seta, preferência, vaga para cadeirantes…e adora uma buzina!

Classe média sofre: o que te irrita de verdade?

Leonardo Sakamoto

Não me irrito com o fato de uma mulher ganhar menos que um homem exercendo a mesma função, com a mesma competência, na mesma empresa; Nem com o atropelamento de ciclistas e pedestres por conta da ignorância coletiva de uma cidade motorizada; Nem com o surgimento imediato de centenas de sem-teto após desocupações patrocinadas pela especulação imobiliária; Nem com ruralistas que tentam aprovar leis que promovem terra arrasada nas florestas do país; Nem com quem prega que índio é tudo bêbado e indolente, feito os “primos” deles, os bolivianos, que vêm emporcalhar a cidade; Nem com quem defende a justificativa de crimes passionais para atenuar um homicídio; Nem com pretensos deputados patriotas que acham que estão defendendo a nação ao passar a régua sobre direitos dos trabalhadores, rifando a qualidade de vida das futuras gerações; Nem com aquela gente fina que sobe o vidro do carro ao ver um negro pobre no cruzamento; Nem com amebas que acham que simplesmente tocar em uma pessoa com HIV positivo mata; Nem com juízes que concedem autorizações para que crianças com menos de dez anos trabalhem e defenestrem sua infância; Nem com autointitulados representantes do divino que adorariam ver mulheres que abortaram ardendo, não no inferno, mas por aqui mesmo; Nem com quem pensa que sonegar nada mais é do que fazer justiça fiscal com as próprias mãos; Nem com homens da lei que fazem bico de jagunços e tocam o terror, adubando o chão da Amazônia e da periferia de São Paulo com sangue; Nem com idiotas que espancam gays nas ruas porque não conseguem conviver com a diferença; Nem com pais e mães que acham que trabalho infantil enobrece o caráter; Nem com militares da reserva que ficam tomando chá da tarde com bolinhos de chuva, falando mal da democracia e arrotando tortura; Nem com o trabalho escravo e quem diz que ele não existe por lucrar com ele; Nem com filhinhos-de-papai que queimam índios, matam mendigos e estupram meninas por aí, pois sabem que ficam impunes; Nem com aquele pessoal funesto que prefere ver uma pessoa urrando de dor em uma cama de hospital ou sedada de morfina 24/7 do que lhe conceder o direito de finalizar a própria vida; Nem com empresários de sorriso amarelo que, na frente das câmeras, dizem que vão mudar o mundo e, por trás delas, poluem, destroem, exploram, enganam; Nem com administradores públicos que adotam políticas higienistas para expulsar os rotos e remendados das ruas das cidades; Nem com aqueles que consideram uma aberração um casal do mesmo sexo adotar uma menininha linda; Nem em quem bate em mulher porque acha que é homem.

 

O que me irrita, de verdade, e me tira do sério, são esses impostos altos que machucam os nossos sonhos de consumo.

 

PS: A nossa classe média é ridícula!

Publicado originalmente em http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/


abril 4, 2013

Homofobia fora de moda, de Pedro Lucena

 

Homofobia fora de moda, de Pedro Lucena.


abril 4, 2013

Iluminura de Martha BarrosIluminura de Martha Barros.

(…) Aprendi a teoria das ideias e a razão pura. Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande saber. Achei que os eruditos nas suas altas abstrações se esqueciam de coisas simples da terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo – Albert Einstein). Que me ensinou esta frase: A imaginação é mais importante do que o saber. Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu olho começou a ver de novo as pobres coisas do chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no corpo. E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as próprias asas. E vi que o homem não tem soberania nem para ser um bentevi.

Manoel de Barros

Ilustração de Manoel de BarrosIlustração de Manoel de Barros.