novembro 30, 2012

África

(…)

estou aqui como tu

borboleta tricolor que pousa no eco das muralhas

e morre a ouvir histórias de um país calcinado.

Índia, de Ana Muriel

(…) estranhos?

estranhos por quê?

talvez o sejamos na distância lusa

dos nossos palmeirais exóticos

panos garridos

gargalhar sensual e provocador

talvez o sejamos até no linguajar materno 

que no berço ouvimos

 –

mas se hoje procuramos a essência

de um passado comum

é porque aquele acento no coração de todos nós

é a ave migratória dos nossos mares entrelaçados.

Arte Aricana

(…)

se um dia meu amor na praia além

olhando o imenso azul

me vires também

é porque eu sou a foz e sou nascente

água corrente

do meu vaivém

 –

se um dia meu amor entre o capim

escutares os poemas

que houve em mim

é porque eu fiquei em pensamento

na voz do vento

que canta assim…

Olinda Beja. Água Crioula.

Literatura de São Tomé e Príncipe.

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novembro 30, 2012

Esse é o Indiozinho Caboclo de Xangô,

belíssima ilustração de Ana Muriel.

É bonito de ver
É tanto prazer
Que seu canto me dá
Vou seguir sua luz
Sua força conduz
Afoxé Ojú Obá

(…)

Reluzente Ojú Obá
Ilumine o meu viver

Chegou, Xangô Aganjú Obá chegou
Foi povo de Zambi quem chamou
Eu quero ir com você.

Africana, também de Ana Muriel.

De repente queremos ser todas as cores,

ser com todas as cores.

E as Oxuns cantam,

a noite é de lua cheia.

Letra de Gilberto Gil


novembro 20, 2012

20 de novembro, Dia da Consciência Negra.

À benção Zumbi dos Palmares! Ogunhê! Patakori Ogun!

À benção Anastácia, Xica, Zezé! Ora iê iê ô !

Quando chegaste, mais velhos contavam histórias. Tudo estava no seu lugar. A água. O som. Na nossa harmonia. O texto oral. E só era texto não apenas pela fala, Mas porque havia árvores (…). E era texto porque havia gesto. Texto porque havia dança. Texto porque havia ritual. Texto falado, ouvido e visto. É certo que podias ter pedido para ouvir e ver as estórias que os mais velhos contavam quando chegastes! Mas não! Preferiste disparar os canhões. A partir daí, comecei a pensar que tu não eras tu, mas outro, por me parecer difícil aceitar que da tua identidade fazia parte esse projeto de chegar e bombardear o meu texto. Mais tarde viria a constatar que detinhas mais outra arma poderosa além do canhão: a escrita. E que também sistematicamente no texto que fazias escrito intentavas destruir o meu texto ouvido e visto. Eu sou eu e a minha identidade nunca a havia pensado integrando a destruição do que não me pertence.

Mas agora sinto vontade de me apoderar do teu canhão, desmontá-lo peça a peça, refazê-lo e disparar não contra o teu texto, não na intenção de o liquidar, mas para exterminar dele a parte que me agride. Afinal, assim identificando-me sempre eu até posso ajudar-te à busca de uma identidade, em que sejas tu quando eu te olho, em vez de seres o outro.

(…) Para fazer isto eu tenho que transformar e transformo-me (…). Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto.

(…) Invento outro texto. Interfiro, desescrevo, para que conquiste a partir do instrumento escrita um texto escrito meu, da minha identidade. Os personagens do meu texto têm de se movimentar como no outro texto inicial. Têm de cantar. Dançar. Em suma, temos de ser nós. “Nós mesmos”. Assim reforço a identidade com a literatura.

Do angolano Manuel Rui,

Eu e o outro – o invasor ou  uma maneira de pensar o texto.


novembro 12, 2012


(Arnaldo Antunes)


novembro 12, 2012

Nenhum rio é apenas um curso d’água,

esgotável sob o prisma da hidrologia.

Um rio é uma entidade vasta e múltipla.

Compreende as margens, as áreas de inundação,

as zonas de captação, a flora, a fauna,

as relões ecológicas, os espíritos, as lendas, as histórias.

(Mia Couto)

No princípio era sol, sol, sol

O Amazonas não estava pronto

As águas atrasadas

derramavam-se em desordem pelo mato.

O rio bebia a floresta.

(Raul Bop)

Sou homem de tristes palavras.

De que era que eu tinha tanta, tanta culpa?

Se o meu pai, sempre fazendo ausência:

e o rio-rio-rio, o rio – pondo perpétuo

(…)

o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre.

(Guimarães Rosa)


novembro 1, 2012

cancioneiro de muitas luas, Roberto Chichorro

devolve-nos à criança que somos,

com seus sonhos e beijos azuis,

suas corujas, violões e violinos…

obra-viva.

respira e movimenta,

onírica,

as (c)asas de nossa infância

Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo.

Nenhuma palavra

alcança o mundo, eu sei

Ainda assim,

escrevo.

Roberto Chichorro nasceu em Maputo (Moçambique) em 1941.

Os trechos líricos são do também moçambicano Mia Couto.