abril 24, 2009

Maria Bethânia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria Bethânia, esse nome-vento.

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abril 19, 2009

Maria Bethânia

 

 

 

 

 

 

 

 

Seu canto é inteligência sensível feita somente de matéria-prima.

Dispensa adornos. É original sem réplicas.

Maria Bethânia é uma geografia de limites bem definidos.

Seu gestual garante-lhe inteireza.

É a grande atriz que o teatro perdeu para a canção brasileira.

No palco, tem tudo de alegre e trágico que o país possui.(…)

Bethânia é a única pessoa que conheço

onde o corpo se faz presente por inteiro

num simples boa noite.

Thereza Eugênia de Andrade

Maria Bethânia e Caetano Veloso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O PERFIL DE BETHÂNIA

 

O perfil de Bethânia é um dos mais belos perfis de mulher que já houve. Sua testa avança numa convexidade incomum e o homem superior logo nota que ali se guarda um cérebro incomum. Sob a testa, cujo arrojo estanca na linha descendente da sobrancelha, que é como que uma versão suave da máscara da tragédia, desenha-se o nariz espantoso: é o nariz do chefe indígena norte-americano, é o nariz da bruxa de Cleópatra e, no entanto, é o único nariz assim, os outros são apenas uma referência a ele. Se esse nariz na vanguarda de uma batalha que o homem superior adivinhou tramar-se no cérebro por trás daquela testa aponta orgulhosamente para o futuro da beleza, a boca parece desmentir a armada: emergindo a um tempo brusca e suavemente à flor do visível, ela anuncia o mel que destilará e consumirá: em palavras, em beijos, em mel. Sim, porque se os olhos traem o corpo por serem uma revelação do espírito inscrito na carne, a boca trai o corpo por ser uma revelação do próprio corpo. Insondáveis são os mistérios do espírito e olhos que vêem inquietam-se diante de olhos que vêem.

         Mas os mistérios do corpo não são menos insondáveis e a boca, esse transbordamento do lado de dentro de um corpo vivo para o seu exterior, é um pequeno escândalo permanente. Assim, a boca de Maria Bethânia, vista aqui de perfil, primeiro parece negar e depois explica e aprofunda a informação plástica estampada na parte superior de sua cabeça: traduz em doçura e amargor o que fora enunciado em dureza e alegria. O que seu queixo arremata numa curva fresca da felicidade infantil. Uma esfinge, um pierrô, uma astronave. Apenas o rosto de uma mulher, desta mulher, pequena e franzina, que deixa o espírito sair pela boca e queima a carne com a luz dos olhos. Que nos dá as costas para falar com alguém do outro lado e depois se volta, agora de frente para nós, indecifrável.

 

 

VELOSO, Caetano. O mundo não é chato. [Apresentação e organização Eucanaã Ferraz]. São Paulo: Companhia das letras, 2005


abril 13, 2009
Gal Costa - 1973

Gal Costa - 1973

Quem foi que disse que essa mulher não voa?

Quem foi que disse que essa mulher não soa?

Um dia nos anos 70 eu sonhei que voava levado pela mão de Gal.

Para mim, e para muitos outros compositores,

a voz dela, com seu timbre,

emissão e articulação únicos, é,

e sempre será, o céu do som, ou melhor,

o som de um céu musical.

Péricles Cavalcanti

 


abril 4, 2009

 

…acabo de rever Milk, a voz da igualdade. E fiquei dessa vez com a presença de Anita Bryant martelando na cabeça. (Da outra, a interpretação de Sean Penn me tomou de assalto!) Impressionantemente parecida com as pedagogas que conheço, semelhança do traço e do discurso, ou até mesmo do jeitinho antipático de ajeitar o cabelo, Anita representa absolutamente tudo o que abomino. E que ainda existe! Um conservadorismo pautado num Deus que não se mostra, que ninguém vê, mas que justifica toda e qualquer agressão e legitima perseguições e terror.

Quem vê esse Deus? Quem O escuta?

Quem são esses que se autorizam a falar em nome Dele?

O papa que vai à África pregar contra o uso da camisinha?

O evangélico que se recusa a dublar Sean Penn no papel gay?

O bispo que excomunga os médicos da garota de 9 anos – violentada pelo padrasto, grávida de gêmeos – e salva a alma do estuprador?

A professora de catecismo que chupa o padre domingo sim domingo não?

O pastor que rouba milhões de seus fiéis ou o que chuta a imagem de nossa Senhora?

A fiel que casa grávida pura e casta de branco na igreja pra titia ver ou a que rosna contra os pecadores depois de visitar sites pornôs?

O frei pedófilo que responde processo e é absolvido?

(…) muitos falam em nome de nosso Senhor e estão sempre prontos a atirar a primeira pedra.

 

O foco do filme está nos anos 70/80. Hoje o conservador estado de Iowa derrubou a lei estadual que proibia o casamento gay. (Já tem conservador querendo recorrer!) Estamos em abril de 2009. Crimes e espancamentos ainda são corriqueiros. A palavra veado ainda é ofensa nos campos de futebol. Os pais ainda expulsam filhos de suas casas ou os mandam a tratamento. Biólogos pesquisam e revelam a normalidade das manifestações homossexuais em animais, quase não se fala sobre. Bichinha sai daqui ainda é frase de efeito.

E as pedagogas continuam Anita Bryant, elas não desistem nunca!

Vi professores homossexuais serem perseguidos e ridicularizados. Vi coordenadoras sussurrarem a palavra lésbica com as mãos na boca, como se se protegessem do pecado. Acima do bem e do mal, elas optaram em separar um casal de garotas do primeiro ano. Uma deveria ficar na turma A, a outra, na H, para reforçar a distância entre as salas. Não as vi separar nenhum casal heterossexual, nem apoiar professores que foram agredidos por playboys insuspeitáveis, alguns filhos de juízes influentes. Vi pedagogas católicas rezarem o terço da mensalidade e lamberem os beiços. Para quem paga, tudo é permitido, ou quase tudo. Vi uma pedagoga-xuxa negociando cargos nos corredores e a outra com os olhos inchados de tanto chorar. Vi opressão por trás de muita mesa de diretoria, a caneta nas mãos, o brilho nos olhos e a força de uma assinatura! Vi muito professor cabisbaixo, calado, calado, calado, com medo até dos escaninhos. Vi uma pedagoga defender o ensino à distância em uma reunião e criticá-lo em outra, são circunstâncias, comentou sem culpa. Talvez as mesmas que a levaram a humilhar um aluno assumidamente gay de 16 anos na frente de toda a turma. Vi um supervisor de português criticar o prazer da leitura, e tropeçar na paródia. Ganhava para ensinar professores que sabiam muito mais do que ele, e não sentia vergonha. Certa vez gritou comigo, apenas porque fiz uma pergunta. Mais tarde soube que ele não sabia a resposta, por isso se aborreceu. Vaidoso de seu posto, bajulava pedagogas velhas, católicas e ensimesmadas, e marcava uma saidinha para mais tarde; sabia bem ganhar sua hora-aula. Vi um professor de biologia assediar um aluno e bradar contra os gays durante o recreio. Um de literatura se irritou com as piadinhas homofóbicas e nunca mais tomou café na escola. Outros dois foram demitidos porque escreveram textos homoeróticos em seus blogs. Não se sabe quem era o leitor assíduo.

Um aluno foi molestado no banheiro, demorou três anos para contar. Foi convidado a se retirar da escola, blasfemou contra o santo-padre-diretor, aquele que dá preferência aos menores de 12 anos.


abril 1, 2009

 

Bechara já disse que o limite da língua é a adequação, o que me faz refletir sobre interação verbal, situação comunicativa, produção de sentido, bem como compreender a língua em seu processo de funcionalidade, no qual, sem dúvida, encontram-se imbricadas a oralidade e a norma padrão. Mas eu quero aqui pensar o limite de outra forma, linha de fronteira que se estica, que se modifica, que se movimenta. Pronta para uma nova geografia. Avessa a qualquer ideia de estagnação. Posso, então, escapulir dessa nomenclatura conceitual para dizer com o verbo de fogo – a língua viva, vicejante, ponte para a construção de outras pontes. Afeita às subversões, aos desvios, aos descaminhos. Liberta das amarras da escrita normativa. Híbrida, heterogênea, dinâmica, feita/refeita na sua condição de uso. Eu quero ser/estar com a língua popular brasileira.

Língua-mãe que abarca códigos e povos diversos contrapondo-se à ideia de fronteira apregoada pelo macho-adulto-branco-ocidental e compartilhando com os indígenas a visão ampla e socializante de deslimite. Historicamente, matriarcado de tumultos e contradições, corpo que amalgama guerras-conquistas-invasões, miscigenação e sincretismo(!),  numa polifonia em que coexistem os bemóis camonianos, os sóis tupi-guarani e macro-jê, os ritmos nagô e yorubá, as dissonâncias árabes etc etc etc.

Língua-pátria: o verbo como princípio, irmandade do ato de criação com o ato de nomeação. O sagrado de nomear, de buscar uma representação (significante) e uma identificação (significado) para as coisas, fenômenos, ardis…

Língua-frátria:  flor do Lácio, o sambódromo! Mistura da demiúrgica lábia com as camadas superpostas do refletido. Alquimia entre a espontaneidade coloquial e o estranhamento pensado. Elo da fala enviesada das ruas com a arquitetura do texto, engenharia que não descansa, raps gays punks góticos…advogados burocratas jornalistas…boteco futebol novela…marajoara rendas bordados…litoral centro sertão…fala das falas das falas…distante de qualquer fixidez normativa, mas convergente com a ideia de gramaticalidade. Ruptura e tradição num compasso vibrante. Cordel e sonata. Machado e Oswald. Macabéas à mancheia.

Por Renata Cabral.

Texto para oficina de ensaio – Regina Perét

Obs.: excerto da entrevista de Evanildo Bechara, concedida a Alexandre Bandeira e homero Fonseca. In: Continente multicultural, anoII, nº13, Pernambuco, CEPE, Jan./2002, p.38

Trechos de Caetano Veloso e Waly Salomão.

Revisão – Samiri Coelho. Auxílio Luxuoso.