setembro 25, 2011

Que delícia a interpretação de Zélia Duncan;

a palavra cantada de Luiz Tatit

ri,

lúdica e certeira.

É  curioso porque não sou fã da leva de Catedral,

comecei a ouvir a Zélia com detida atenção só no ano passado,

vejam só,

e estava numa fossa daquelas,

aí tocou Não vá ainda

(parceria com o adorável Christiaan Oyens),

 gravação ao vivo, lindo-intenso arranjo!

A percussão de Simone Soul

reverberou meus tambores internos,

pulsou em mim

e

revirou todas as minhas mais secretas gavetas.

Eu ouvi a canção inúmeras vezes.

Fui, então, curiosa, pulando para outras e outras,

itamar-assunpção-arnaldo-antunes

pra ela que é alma

Grave com delicadeza

em tempo de guerras intermináveis.

Grave na sua inteireza

que

comove,

quiçá até a aridez dos homens apressados

A Zélia sorri e, de repente, viramos, todos, íntimos.

Sua canção é nossa casa.

Telhados de Paris, arranjo impecável de John Ulhoa,

me acompanha madrugada afora,

quando, arteira, me aceito o erro

e vivo pelo sabor de gesto,

quase criança.

Afinal,

 eu também não consigo ficar indiferente debaixo desse céu.

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setembro 14, 2011

Os muros fora e dentro de nós

Jean Wyllys

Toda vez que, chegando ao Rio de Janeiro, passo pela Linha Vermelha – e eu passo por aí quase todo fim de semana – indigno-me com aquele muro mal disfarçado construído nas favelas do Complexo da Maré e outras que margeiam a linha de tráfego.

Construído pela prefeitura em parceria com o governo estadual, visa a esconder a vista dos turistas que chegam à Cidade Maravilhosa pelo aeroporto Antônio Carlos Jobim, o Galeão. Apesar da explicação e justificativa oficiais – de que o muro fora erguido para  isolar as populações das comunidades do barulho produzido pelos carros que trafegam na Linha Vermelha – parece-me bastante óbvio que o primeiro objetivo do muro é esconder a “feiura” da paisagem que poderia levar (e, em muitos casos, leva) os visitantes a se questionarem até que ponto o Rio é mesmo uma cidade maravilhosa.

As casas descarnadas, sem reboco, amontoando-se umas sobre as outras em tons pastéis e à margem de uma baía poluída de lixo decorrente do consumo.

O segundo objetivo do muro – jamais admitido! – é  servir de escudo para as balas que cruzam a linha durante as guerras de facções criminosas por elas separadas, solução simplista e ineficaz para a violência decorrente do narcotráfico. Parece-me bastante óbvio que o objetivo do muro é esconder o resultado da histórica injustiça social, expressa na favelização resultante da ausência de políticas  públicas eficazes de distribuição de renda, habitação e meio ambiente que assegurar vida aos moradores do Rio de Janeiro, sobretudo aos mais pobres.

Mas apesar de me parecer um estorvo, o muro da Linha Vermelha está de acordo com aquilo que o filósofo e psicanalista Slavoj Zizek chama de “verdade do capitalismo global”: muros se erguem ao redor do mundo. Segundo ele, os muros de hoje – que não são da mesma noção que sustentou o muro de Berlim e, antes, a muralha da China – “não raro servem a múltiplas funções: defesa contra o terrorismo, contra os imigrantes ilegais, contra o contrabando, contra ocupação de terra, etc.”. Nesta etecétera incluo a função de defesa contra os pobres e a função estética, as quais cumpre o muro da Linha Vermelha.

Os muros de hoje, contudo, não se limitam à topografia das cidades, à sua existência material, quase sempre composta de concreto e metal. Os muros ou se disfarçaram em sequências de painéis artísticos, como é o caso do muro da Linha Vermelha, ou se inscreveram na topografia de nossas almas ao migrar para dentro de nós. Como diz a letra de uma balada do Engenheiros do Hawaí que ouvia quando adolescente, “há um muro de concreto entre os nossos lábios/há um muro de Berlim dentro de mim”.

De acordo com Zizek, os muros de hoje são ícones da erosão da soberania do estado-nação e da (re) emergência de uma mentalidade fascista e neofascista decorrentes da globalização. O filósofo, contudo, não descarta o papel relevante do fundamentalismo religioso nesse processo que ameaça o estado soberano e preparado para atender e salvaguardar a pluralidade das mulheres e homens e sua diversidade cultural. Não por acaso os porta-vozes desse fundamentalismo, no Brasil, estão ligados a igrejas cujo funcionamento e atuação as deixam mais parecidas com empresas transnacionais, que visam ao lucro financeiro,  que com espaços para a comunicação com o sagrado.

Os muros (de) concretos expressam, por um lado, o fascismo que sorrateiramente impregna as políticas públicas de segurança e/ou de controle e uso do solo executadas por muitos governantes (e em alguns casos, eles sequer têm consciência desse fascismo). Por outro, as perseguições políticas – explícitas ou disfarçadas –  que têm como alvo homossexuais, adeptos das religiões de matriz africana (candomblé, umbanda, batuque, xangô e macumba) e ateus, são expressões dos muros que os fundamentalistas insistem em erguer nas almas dos fiéis, com a ajuda de uma mídia audiovisual cada dia mais refém do mercado e da publicidade.

E nós, defensores do estado laico e do bem-estar social, ficaremos de braços cruzados diante dessa situação? Ou esperaremos pelo dia em que o maior esconderijo já não nos servirá de abrigo nem nos dará proteção?

Publicado originalmente na Carta Capital

http://www.cartacapital.com.br/politica/os-muros-fora-e-dentro-de-nos


setembro 14, 2011


A abolição da escravidão também foi se repetindo, ao longo de todo o século XIX, nas novas pátrias latino-americanas.

A repetição era a prova da sua impotência. Em 1821, Simón Bolívar declarou a morte da escravidão. Trinta anos depois, a defunta continuava gozando de boa saúde, e novas leis de abolição foram decretadas na Colômbia e na Venezuela.

Nos dia em que foi promulgada a constituição de 1830, os jornais do Uruguai publicavam ofertas como estas:

Vende-se muito barato um negro sapateiro.

Vende-se uma criada recém-parida, própria para ama.

Vende-se uma negra jovem, de dezessete anos, sem vícios.

Vende-se uma parda muito ladina para qualquer trabalho de fazenda, e um tacho grande.

Cinco anos antes, em 1825, havia sido promulgada a primeira lei uruguaia contra a venda de gente, que precisou ser repetida em 1842, 1846 e 1853.

O Brasil foi o último país das Américas e o penúltimo do mundo. Lá, houve escravidão legal até o final do século XIX. Depois também houve, mas ilegal, e continua havendo. Em 1888, o governo brasileiro mandou queimar toda a documentação existente sobre o assunto. Assim, o trabalho escravo foi oficialmente apagado da história pátria. Morreu sem ter existido, e existe apesar de ter morrido.

GALEANO, Eduardo. Espelhos. Uma história quase universal. Trad. Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 176-177.


setembro 4, 2011

Quem me pariu foi o ventre de um navio

Quem me ouviu foi o vento no vazio.

Capinam

minha carta de alforria

não me deu fazendas

nem dinheiro no banco,

nem bigodes retorcidos.


minha carta de alforria

costurou meus passos

aos corredores da noite

de minha pele.

  Adão Ventura

Uma gota de leite

Me escorre entre os seios

Uma mancha de sangue

Me enfeita entre as pernas

Meia palavra mordida

Me foge da boca

Vagos desejos insinuam esperanças.

Conceição Evaristo

Entre silêncio e som

Riem tambores e sombras.

Os meninos criaram memória

Antes de criar cabelos.

Edimilson Pereira