junho 30, 2013

O barco de cada um está em seu próprio peito

(Provérbio Macua)

Ilustrações de Cathy Delanssay

A liberdade ofende. Mulher de olhos brilhantes, Isadora é inimiga declarada da escola, do matrimônio, da dança clássica e de tudo aquilo que engaiole o vento. Ela dança porque dançando goza, e dança o que quer, quando quer e como quer, e as orquestras se calam frente à música que nasce de seu corpo. 

(Eduardo Galeano)

Ilustrações de Gaëlle Boissonnard

Deus já foi mulher.

(Mariamar, personagem de Mia Couto)

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junho 30, 2013

Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.
Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.
Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

Jalal al-Din Al Rumi (1207-1273)


junho 22, 2013

#BlogDemocracia

Consideramos justa toda forma de amor.

A cantora, compositora e artista plástica Érika Machado com sua companheira Filipa Bastos. Na legenda da foto, divulgada via twitter, a inscrição: Liberdade não tem cura!

“Eu tava rezando ali completamente

Um crente, uma lente, era uma visão

Totalmente terceiro sexo,

totalmente terceiro mundo,

terceiro milênio”

Carne nua nua nua nua nua”

Manifestação contra a “cura gay”.

É curioso porque hoje busquei informações sobre a passeata de ontem e li, em várias reportagens, que a manifestação ganhou “tom de balada”.  A grande mídia se esquece da importância do movimento LGBT: a favor do casamento civil igualitário; a favor da criminalização da homofobia e contra as atrocidades de Marcos Feliciano. Movimento sempre aliado à pauta dos direitos humanos… Movimento que sempre esteve nas ruas porque nunca vivenciou o luxo de adormecer (aproveito para rebater o chatíssimo e equivocado  bordão O gigante acordou)

Charge do genial e sempre antenado Latufe.

#ForaFeliciano!

“Desde que se compreendeu que o desejo erótico e amoroso não se cumpre por meio da obediência a rituais sociais consagrados pela moralidade hegemônica, a homossexualidade passou a ser considerada uma entre diversas possibilidades amorosas. No entanto, mesmo a moralidade patriarcal e monogâmica não pretende ostensivamente deslegitimar o divórcio, os rearranjos familiares e mesmo a vida solteira e aberta à multiplicidade de alternativas sexuais. É sobre a homossexualidade que recai a intolerância dos que entoam trechos bíblicos para legitimar a posição política sobre a inoportunidade do desejo. Nem sequer o fazem em relação à infração penal do estupro. Parecem preferir julgar os que se amam sem governo pastoral, mirando também impiedosamente as mulheres vítimas da opressão machista que viola seus corpos na relação sexual forçada.”

Família reunida contra a “cura gay”. 

A família homoparental é uma realidade em grande parte do mundo. Algumas existentes por laços jurídicos, outras por laços biológicos, o fato é que são famílias e como tal devem ser entendidas e respeitadas.

“O que marca o ethos gay é a relação com a família, a ruptura com a família. Ao contrário da criança negra, da criança judia, da criança indígena que, quando vítima da estupidez do mundo, volta para a casa e encontra iguais que lhe acolhem, a criança gay não encontra esse acolhimento em casa, muitas vezes a família é a fonte da violência, a família é a fonte do abuso, do assédio moral e quase sempre a família obriga esse homossexual a sair de casa (…) Essa fissura do afastamento da família faz com que os homossexuais pleiteiem uma recomposição da família através da adoção.”

Trechos de Lulu Santos, Caetano Veloso, Tatiana Lionço e Jean Wyllys.

Vale ler a reflexão de Márcia Tiburi, basta clicar aqui.


junho 22, 2013

#BlogDemocracia

O movimento dependerá da capacidade de não confundir rejeição ao atual sistema político-partidário com recusa da democracia.

Há uma semana escrevi sobre o movimento pelo “passe livre” www.luizeduardosoares.com, chamando a atenção para o fato de que o novo surpreende e assusta, porque rompe a estabilidade das expectativas, coloca em xeque nossos esquemas cognitivos, revela a precariedade da ordem social e evoca o espectro de nossa finitude. Somos levados a reconhecer que não apenas a vida humana é frágil como aquilo que chamamos “realidade” é débil e movediço. Por isso, o desconhecido tende a suscitar em nós reações defensivas e explicações que funcionam como a confirmação do que já se sabe — ou se supõe saber. Se o propósito é conhecer, devemos buscar, com humildade, a compreensão autorreflexiva e a desnaturalização das descrições correntes. Até porque todo esforço de entendimento é também ação política.

Gigantesca manifestação no Rio de Janeiro, junho de 2013.

Ao PT que venceu, o país deve muito. Os governos Lula, e mesmo Dilma, ficarão na História como marcos fundamentais na redução das desigualdades. Contudo, quais têm sido suas contribuições para o aprimoramento da democracia e para a mudança das relações entre Estado e sociedade, governos e movimentos sociais?

 

Pode-se ostentar a arrogância tecnocrática e abraçar Maluf, porque os fins sempre justificariam os meios? Os apologistas petistas do pragmatismo ilimitado não se deram conta de que os meios são os fins, quando a perspectiva adotada é a confiança da sociedade no Estado, em especial a credibilidade do instituto da representação. Hoje, tantos que acreditaram na dignidade da política vagam sem norte como zumbis da desilusão. E a juventude procura um caminho para chamar de seu. São dez anos de PT no poder: uma geração não o conheceu na oposição e não sabe o que é um grande partido de massas, não cooptado, comprometido com as causas populares e democráticas, entre elas e com destaque a reinvenção da representação política e a confiança na participação da sociedade como antídoto ao autoritarismo tecnocrático. Por mais que se façam críticas pertinentes à forma partido, é indiscutível sua importância na transmissão de experiências acumuladas e na formação da militância. Até a linguagem das massas nas ruas tem sua gramática. A espontaneidade é a energia, mas a organização a potencializa e canaliza.

Caê e Ronara, manifestação em Belo Horizonte, junho de 2013.

O Movimento pelo Passe Livre declarou à nação que o rei está nu, proclamou em praça pública que a representação parlamentar ruiu, depois que, capturada pelo mercado de votos, resignou-se a reproduzir mandatos em série, com obscena mediocridade, sem qualquer compromisso com o interesse público, exibindo o mais escandaloso desprezo pela opinião pública. O colapso da representação vem ocorrendo sem que as lideranças deem mostras de compreender a magnitude do abismo que se abriu — e aprofunda-se, celeremente — entre a institucionalidade política e o sentimento da maioria. As denúncias de corrupção se sucedem, endossando a visão negativa que, injustamente, mas compreensivelmente, generaliza-se.

Trechos do artigo de Luiz Eduardo Soares, publicado hoje em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2013/06/22/luiz-eduardo-soares-que-vem-depois-da-queda-da-tarifa-500795.asp

Olhos bem atentos! 

Certamente um problema que o movimento enfrenta são as tentativas de manipulação de fora. Uma delas, representada pelos setores mais extremistas, que buscaram inserir reivindicações maximalistas, de “levantamento popular” contra o Estado, que justificariam suas ações violentas, caracterizadas como vandalismo. São setores muito pequenos, externos ao movimento – com infiltração policial ou não. Conseguem o destaque imediato que a cobertura da mídia promove, mas foram rechaçados pela quase totalidade dos movimentos.

A sagacidade de Angeli.

A outra tentativa é da direita, claramente expressa na atitude da velha mídia. Inicialmente esta se opôs ao movimento, como costuma fazer com toda manifestação popular. Depois, quando se deu conta que poderia representar um desgaste para o governo, as promoveu e tentou inserir, artificialmente, suas orientações dirigidas contra o governo federal.

Trechos do artigo de Emir Sader, publicado originalmente em: http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=1268


junho 20, 2013

#BlogDemocracia

Vamos tomar cuidado com as manipulações de direita, e não são poucas…

É muito fácil se infiltrar e vociferar ódio e asneira…

Os canalhas não sentem vergonha, não têm pudor…

Basta nos atentarmos para a postura ridícula e cínica de Marcos Feliciano ontem, fazendo coraçãozinho para os manifestantes LGBT…

“(…) Resquício de ditadura

Mostrando a mentalidade

De quem se sente autoridade

Nesse tribunal de rua”

Cena emblemática! Brasília, junho de 2013.

Depoimentos circulam na rede e nos arrebatam!

Moçada reunida em paz.

A caminho da Pampulha, Belo Horizonte, junho de 2013.


junho 18, 2013

#BlogDemocracia

As manifestações recentes demonstram claramente que há um sentimento generalizado de cansaço e indignação à violação cotidiana dos nossos direitos civis

Manifestação em Brasília, 17 de junho de 2013.

Na abertura da Copa das Confederações, 8 mil manifestantes nas ruas de Belo Horizonte, reivindicando respeito, passe livre, melhor qualidade nos transportes públicos. O movimento, contrário aos gastos abusivos para a Copa do Mundo, questiona também a PEC 37 (projeto conhecido como PEC da Impunidade, que visa a tirar o poder de investigação criminal dos Ministérios Públicos Estaduais e Federal, uma forma de inviabilizar investigações contra o crime organizado, desvio de verbas, corrupção, abusos cometidos por agentes do Estado e violações de direitos humanos). Os estudantes se encontraram no meio do caminho com a Marcha das Vadias e com o movimento LGBT – uma cena linda e flagrante de que o aumento das passagens é apenas o estopim das passeatas. Vamos nos lembrar das inúmeras e recentes manifestações contra o deputado Marcos Feliciano, presidente da Comissão dos Direitos Humanos; do apoio aos indígenas Guarani-Kaiowá; do manifesto contra a demolição do Estádio de Atletismo Célio de Barros, do Parque Aquático Júlio Delamare, da Escola Municipal Friedenreich e contra a privatização do Maracanã.

O sentimento de cidadania estava nas ruas, com sua multiplicidade.

(Ontem o movimento contou com 30 mil nas ruas, o percurso até a UFMG foi tranquilo. Lá a polícia começou sua cena de violência e abuso de poder, tão rotineira contra os negros e pobres da capital. Muitos colegas se machucaram, alguns ficaram encurralados entre as grades da faculdade e a pm. Momentos de terror e susto!)

Em Brasília, Dilma Roussef vaiada. Achou que seria aplaudida de pé? Achou que aquelas pessoas que pagaram ingressos caríssimos não sabem do superfaturamento dos estádios? Da putaria das licitações para a administração de cada um?

A postura linguística da presidenta de ressaltar o feminino A, apesar de interessante, não é suficiente. Seu governo negligencia a pauta das mulheres – foi também merecidamente vaiada pelas feministas na Rio+20 (e ficou nervosinha)! Sua omissão diante dos protestos contra Marcos Feliciano, a fim de garantir a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara aos condenados José Genuíno (por corrupção ativa e formação de quadrilha) e João Paulo Cunha (por peculato, lavagem de dinheiro e corrupção passiva); sua escolha de se aliar a ruralistas e evangélicos fundamentalistas que tocam o terror e fingir que nada está acontecendo, além de desconsiderar a pauta do movimento LGBT; sua (im)postura diante dos conflitos agrários e dos indígenas e o vexame de insistir em usinas hidrelétricas como única medida possível para a energia do país revelam alguns dos erros de seu governo.

(…) O Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão

(Renato Russo)

[Eu sei que, mesmo com todos os problemas, os governos Lula e Dilma são bem melhores do que os 8 anos obscuros de FHC, mas me dou o direito de criticar as merdas atuais. Cansa esse reducionismo PT X PSDB na mídia. Criticar o governo NÃO significa compactuar com as falácias dessa oposição suja e de centro-direita.]

É triste vivenciar como grande parte do PT optou por queimar suas bandeiras. Eu estava nas ruas com o PT, PCdoB, PCB e com a UJS no Fora Collor. Eu presenciei a força do movimento estudantil, apesar de alguns livros de história insistirem em negar a força política da UNE e UBES na época – os mesmos livros que mencionam Zumbi em um parágrafo e negam figuras como Rosa Maria e Chica da Silva. Eu estava grávida do Caê, os amigos cuidavam para que eu não pulasse muito em cada voto a favor do impeachment. No sábado e na segunda, o Caê estava nas ruas. 

Manifestação em Belo Horizonte, 15 de junho de 2013.

Na passeata, houve vaia aos militantes do PSOL e PSTU (confesso que sou contrária a essa vaia porque acho que os militantes devem ser bem vindos às manifestações, mas a compreendo. Essa moçada NÃO se identifica com os partidos, NÃO se sente representada). Os estudantes prezaram por mostrar que foi um gesto livre de partidos, uma passeata independente, organizada via facebook. O verso Meu partido é um coração partido, do Cazuza, estampou vários cartazes. Simbólico, não? É uma moçada em busca de uma ideologia para viver, sem uma referência exata de esquerda, centro e direita. O que é a oposição no Brasil? DEM? PSDB? PSB? Filhotes de ditadura militar; políticos sujos trajados de bons moços… e muito blá blá blá. Eles também merecidamente foram alvo dos manifestantes.

Manifestação em Belo Horizonte, 15 de junho de 2013.

(Vale ressaltar que o movimento Fora Lacerda já é antigo).

A diversidade de partidos com os mesmos problemas de gestão é flagrante nas capitais. Retrata, portanto, o descrédito dos estudantes e de boa parte da população.

Como são irritantes e mentirosas as propagandas do governo de Minas Gerais!!!

Como é intragável a dupla Fernando Haddad e Geraldo Alckmin!!!

Como é nojento o cinismo de Sérgio Cabral e Eduardo Paes!!!

Manifestação de 100 mil  pessoas no Rio de Janeiro, 17 de junho de 2013.

A grande mídia tratou os manifestantes como vândalos e repetiu aquelas reportagens ridículas que enfatizam o engarrafamento, que entrevistam o cidadão dentro do carro e não o manifestante e que sequer mencionam quais eram os motivos do protesto. Informação zero, texto semi-pronto.

É estranho porque os jornais estão falindo e os editores ainda não perceberam que os blogs e portais alternativos são mais lidos, mais informativos e mais consistentes. Não notaram ainda que cada cidadão hoje é um cronista em potencial, que os celulares clicam, filmam e reproduzem um material que circula quase em tempo real na rede. Enquanto os jornais da Globo desinformavam (e o Jabor babava asneiras), na internet, os vídeos, fotografias e textos mostravam a realidade das manifestações e a truculência da polícia – que detesta ser filmada e age como se estivéssemos ainda na ditadura militar. Polícia para quem?

Lindo depoimento!

Depois que a Giuliana Vallone, da Folha de São Paulo, foi atingida, parte da mídia burguesa mudou o discurso e resolveu noticiar os fatos. Neste vídeo da TV Folha, até o Luiz Felipe Pondé – tão elitista sempre, heteronormativo ao cubo – defendeu os ativistas.

Muito se falou na mídia paulista sobre 20 centavos. Ora, não são 20, mas 40, afinal o trabalhador vai e volta! R$6,40 por dia é um abuso! Faça as contas! O transporte público é acintoso: ônibus lotados (ê vida de gado!); pneus carecas; cadeiras danificadas; motoristas e cobradores mal remunerados, mal assistidos e mal treinados… O índice de assaltos nos pontos de ônibus e dentro das conduções é altíssimo também. O trabalhador (em todo o país) é vítima e refém de uma situação caótica e diária.

Manifestação em São Paulo, 17 de junho de 2013.

Vale ler os textos de Eliane Brum sobre a causa indígena e sobre as manifestações, basta clicar aqui e aqui.


junho 15, 2013

Caçamos o poente, uma bandeira rosa esfumaçada adiante, para lá da cidade. A noite nos perseguia com sua maré de carbono a tomar conta do céu atrás de nós, enquanto a luz dos postes lançava períodos de claridade como estandartes ou faróis a buscar dois fugitivos.

Ilustração de Gabriel Pacheco

(…) os livros, para preencher seus dias inteiros de chuva, enfileiram-se nas prateleiras (…)

Indecisão e devaneios são os anestésicos da atividade construtiva.

Sente vergonha ao reler os parágrafos cheios de lirismo sentimental que pareciam tão genuínos e reais havia poucos meses.

– Deus, quem sou eu? Sentada na biblioteca, esta noite, vi luzes brilhantes no teto, ouvi o zumbido alto do ventilador.

Como explicar a Bob que minha felicidade depende de arrancar um pedaço da minha vida, um fragmento de aflição e beleza, e transformá-lo em palavras datilografadas numa página?

Trechos de Os diários de Sylvia Plath (1950-1962)

Editados por Karen V. Kukil

Tradução de Celso Nogueira. Ed. Globo,  2004.