janeiro 30, 2010

PEDRA D’ÁGUA, ABISMO, PEDRA-FERRO

Como te chamas? Para que eu possa ao menos

Soletrar teu nome, grudada à tua fundura.

Uma mulher suspensa entre as linhas e os dentes.

Antiquísssima ave, marionete de penas.

As asas que pensou lhe foram arrancadas.

Lavado de luzes, um deus me movimenta.

Indiferente. Bufo.

Dá-me a via do excesso. O esturpor.

Amputado de gestos, dá-me a eloquência do Nada

Os ossos cintilando

Na orvalhada friez do teu deserto.

3 poemas de Hilda Hilst.

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janeiro 26, 2010

Quero possuir os átomos do tempo

Clarice Lispector



janeiro 10, 2010

nÃo dá para comEçar o ano em marcha à ré,

bajulando olhares caducos e posTuras engessadas…

beiJo molhAdo e bom bocado de WaLy:


minha boca saliva porque tenho fome

e essa fome é uma gula voraz

que me traz cativo

atrás do genuíno grão da alegria

que destrói o tédio

e restaura o sol

no coração do meu corpo

Waly Salomão

O que o poeta pretende é desentranhar a fúria dionisíaca do ventre sintaxeal, ou seja, é necessário “inventar metas para atravessar, ver através”, perambular por entre, sob e sobre as fendas da existência; tornando-se nômade e assustadoramente demolidor (“guerreiro”), recolhendo e distribuindo errâncias e delírios, sem bastar-se a si mesmo.

Trecho do livro O amante da algazarra. Nietzsche na poesia de Waly Salomão. De Flávio Boaventura. Editora UFMG, 2009

W.S.: CARTA ABERTA A JOHN ASHBERY

Waly Salomão

A memória é uma ilha de edição – um qualquer

passante diz, em um estilo nonchalant,

e imediatamente apaga a tecla e também

o sentido do que queria dizer.

Esgotado o eu, resta o espanto do mundo não ser

levado junto de roldão.

Onde e como armazenar a cor de cada instante?

Que traço reter da translúcida aurora?

Incinerar o lenho seco das amizades esturricadas?

O perfume, acaso, daquela rosa desbotada?

A vida não é uma tela e jamais adquire

o significado estrito

que se deseja imprimir nela.

Tampouco é uma estória em que cada minúcia

encerra uma moral.

Ela é recheada de locais de desova, presuntos,

liquidações, queimas de arquivos, divisões de capturas,

apagamentos de trechos, sumiços de originais,

grupos de extermínios e fotogramas estourados.

Que importa se as cinzas restam frias

ou se ainda ardem quentes

se não é selecionada urna alguma adequada,

seja grega seja bárbara,

para depositá-las?

Antes que o amanhã desabe aqui,

ainda hoje será esquecido

o que traz a marca d’água d’hoje.

Hienas aguardam na tocaia da moita enquanto

os cães de fila do tempo fazem um arquipélago

de fiapos do terno da memória.

Ilhotas. Imagens em farrapos dos dias findos.

Numerosas crateras ozonais.

Os laços de família tornados lapsos.

Oco e cárie e cava e prótese,

assim o mundo vai parindo o defunto

de sua sinopse.

Sem nenhuma explosão final.

Nulla dies sine linea. Nenhum dia sem um traço.

Um, sem nome e com vontade aguada,

ergue este lema como uma barragem

anti-entropia.

E os dias sucedem-se e é firmada a intenção

de transmudar todo veneno e ferrugem

em pedaço do paraíso. Ou vice-versa.

Ao prazer do bel-prazer,

como quem aperta um botão da mesa

de uma ilha de edição

e um deus irrompe afinal para resgatar o humano fardo.

Corrigindo:

o humano fado.

A trama da vida é prolífica de sinais e o poeta é uma espécie de flâneur que espatifa o eu fechado, movido pela pulsão de fuga rumo a outros. Rumar, enfim, em busca de identificações múltiplas, tornar-se nômade “SOB O SIGNO DA DEVORAÇÃO”, exaltando a incompletude permanente da vida.

Trecho do livro O amante da algazarra. Nietzsche na poesia de Waly Salomão. De Flávio Boaventura. Editora UFMG, 2009