junho 17, 2014

Comecei a ouvir O Rappa com acuidade por causa do Caê, meu filho. Eu achava barulhento, estava numa fase jobiniana ao cubo… mas ele (garoto ainda) insistiu, disse para eu mergulhar nas letras. Mergulhei.

Fiquei vidrada em Lado A Lado B, um disco pop com conceito estético. CD que nos remete ao vinil (até aquele ruidinho da agulha…). Poético. Negro. Marginal.

Certa vez, em um supermercado, no bairro Buritis, um rapaz, ao organizar as laranjas na gôndola, cantava bem, bem alto EU SOU GUERREIRO, SOU TRABALHADOR E TODO DIA TODO DIA… nunca me esqueci dessa cena. Forte demais porque havia ali uma identificação. Ele vestiu a canção. Ele era a canção.

Fiquei vidrada em Marcelo Yuka!

[A voz do Falcão e sua presença de palco me pegaram de início também… mas  Janaína Assis canta com mais força e propriedade as canções da banda, sua voz – entre flor de pêssego e cal – potencializa cada palavra, cada linha melódica. Seu violão percussivo metralha a brutalidade do poder instituído e legitimado. Senti, uma vez, no bar do Jairo, na periferia de Santa Luzia, que aquela voz –  combinada à poesia de Yuka –  habitava (e transformava) cada um ali, de alguma maneira.]

Chegou a notícia dos tiros. Chorei cântaros. Era como se estivesse perdendo um amigo. Não estava?

[Quando li Cabeça de Porco, me comovi (tudo de novo) com a narrativa de Luíz Eduardo Soares sobre o episódio].

Um tempo depois, a notícia do acidente de Herbert Viana, o rosto do Valdir se transfigurou. Fui dura na tentativa de contê-lo, estávamos trabalhando, achei que ele fosse chorar ali, naquela ambiente hostil de shopping. Sofreu como se Herbert fosse seu amigo. (Essa intimidade profunda que estabelecemos com quem admiramos…)

A comparação entre a atitude das bandas foi inevitável. Tentei não julgar; entretanto, internalizei uma desconfiança…

O fato é que nunca mais comprei um cd de O Rappa, apesar de gostar de Rodo Cotidiano, daquela imagem da minhoca de metal que corta as ruas…

Comecei a trabalhar o videoclipe A minha alma em sala. Vale ressaltar, o melhor videoclipe, sem sombra de dúvida, de todos os tempos. (Ganha até do belíssimo All I Need, de Radiohead). É cinema. É poesia. É a célula de Cidade de Deus. Sempre tive pavor de me tornar aquela professorinha que repete as aulas. Busco textos novos, trabalho com o artigo do dia, da semana… me arrisco, me desafio, gosto de compor junto à turma, de desenvolver reflexões, não de impor. Mas todo ano fico tentada a dar essa aula de A minha alma, porque a poesia ali não tem fim, porque há uma complexidade ali que é instigante. O que tenho feito: Mantenho o vídeo e altero as analogias, os enunciados… jogo com outros autores, na última, saquei Bauman, foi incrível. É sempre incrível… a identificação é imediata, os alunos devolvem com textos ousados e consistentes, muitos me abraçam, se emocionam…é lindo!

[Marcelo Yuka, Eduardo Galeano, Eliane Brum e Jean Wyllys sempre rendem aulas profundas… meu quarteto mágico!]

Há pouco tempo, o Caê (novamente, agora já adulto) me mostrou o desabafo de um internauta a respeito da postura fútil do Falcão. O texto é ótimo. Contundente! Fiquei curiosa, aguçou aquela velha desconfiança. Assisti a Caminho das Setas. Tomei um nojo do Falcão, de sua vaidade e ganância. E ninguém ali fala por ele, viu? Na sua entrevista, a máscara cai. Chegou a dar repulsa do cara, não consigo ouvir mais…

Alguns me criticam, querem que eu desconsidere a entrevista, que curta os dois. Detesto essa (im)postura. Gosto de me posicionar. É essencial!

Hoje acordei 4 da manhã para acabar de ler a biografia Não se preocupe comigo. Corajosa. Intensa. Não consegui esperar o dia amanhecer.  

Só o capítulo sobre o Waly Salomão já vale o livro.

Só que tem mais. A relação com os pais, com São e Seu Jorge, com Marcelo Freixo, com os presidiários, com o público…

A vivência da comunhão. O exercício de alteridade, como o de entranhar a sabedoria de Zé Galinha, um ex-bandido que não aceita armas em casa. Essa cena é linda. Não vou contar, ‘bora ler o livro, gente!

A clareza na análise da violência urbana é inspiradora, tocante… “esses tiros vieram de muito longe.” “Quem está dando o tiro pode não ser a pessoa que aperta o gatilho; é muita gente atirando de muitos lugares…”

O relato do segundo assalto, a relação cíclica de e com Exu, a noção de como a violência atravessa e é travessia de sua vida…

Estou arrebatada. Vulcão. Chuva. E seus silêncios…

Vou ficar velhinha redescobrindo A minha alma com os alunos. Porque você, Yuka, nos ensina a pensar.

Marcelo Yuka no Caminho das Setas, de Daniela Broitman.

Não se preocupe comigo. Marcelo Yuka, por Bruno Levinson. Editora Sextante, 2014.

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