fevereiro 27, 2009

 

gaia ciência

Por Flávio Boaventura

 

– disse a juriti: meu canto pertence a este chão

– disse a serpente: assanha que eu gosto

– disse o mico-preto: levita que eu sonho

– disse o tucano: o mais profundo é a leveza

– disse o pavão: belezas-acontecimentos

– disse a chuva: branduras leves como a água

– disse a terra: cunhar corações planetários

– disse o tempo: é para já

– disse o vento: pele porosa, sujeita a contatos

– disse a palavra: excitação integral

– disse a noite: batuquem os dias

– disse o dia: soprem as noites

– disse a lua: sem calendários fixos

– disse a árvore: desorientar/reorientar objetivos

– disse a criança: o vir a ser

– disse o velho: olhar para dentro, agir para fora – e vice-versa

– disse o sol: coreografia das cores

– disse a semente: desfazer linhas duras

– disse a alegria: fruição dos momentos

– disse a rã: algazarra enquanto grito de combate

– disse a cotia: brotar desvelamentos/revelações

– disse a cotovia: regar silêncios

– disse o beija-flor: todo cuidado é mira

– disse o bem-te-vi: todo gemido é açude

– disse o caracol: murmurar mitos vadios

– disse o jabuti: apressa-te devagar

– disse a cigarra: cantar é minha sina

– disse a formiga: trabalhar sonhos diários

– disse a aranha: a teia enquanto texto

– disse o indecifrável: a tela enquanto gozo

– disse o inapreensível: inventar deslocamentos/dribles

– disse o inefável: provocar/acolher diferenças

– disse o indizível: celebrar a poética cambiante da vida

– disse o inadiável: quero-quero…

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fevereiro 27, 2009
Robson Santos e Maria Bethânia

Robson Santos e Maria Bethânia

 


fevereiro 22, 2009

 

João Cabral: dentro e fora, forma e sentido.

Por Robson Santos

 

Pedra-de-toque.

Pedra-de-rumo.

O que tem uma língua a oferecer

e o que dela faz alguns desbravadores.

Um poeta das formas, matemático dos versos,

não dá de costas ao sentido.

É que ele compreende que o tal conteúdo

é refém-irmão do código da emissão.

João Cabral gravita ao redor do sol

com uma poesia substantiva.

Adjetivo e metáfora são submetidos exaustivamente

ao esmeril. Só assim cabem

meticulosos

na frase poética

e com potência de elevação ao significado enésimo.

Aresta, adorno, ornato sobrecarregam

a voz que enuncia.

Deles liberto; o verso sem sombras,

livre das gorduras saturadas,

diz a que vem.

Esconde sua alma no próprio sol.

Ali se oculta e ali se apresenta

como o osso de um cachorro,

o pé de quem dança,

as nervuras da cana que fazem do seu exterior

a proteção ao que tem de interior.

Trata-se de um arriscado projeto de arte e de vida:

apresentar-se como exterioridade

e ofertar ao fogo um conteúdo interno possível.

Nesse conturbado risco dá-se a invenção cabralina.

O poeta ateu que treme de medo do purgatório.

O poeta da fímbria que evita o interno

como um ourives alcança o diamante obsessivamente

rejeitando o que não é essencial.

João Cabral, não por acaso

explodiu o poema em clareza de beleza infinita,

em pensamento nítido que faz do verso

um poema dentro do poema.

Em compensação, sua criatura (corpo e matéria psíquica),

implodiu-se em dores de cabeça quarenta anos a fio,

úlceras, cegueira e angústia exacerbada.

Enquanto o leitor é premiado com febre literal

diante do absurdo da beleza,

o autor dos versos consome-se em fadiga emocional

pela produção do pensamento em verso.

São escolhas.

João (que não me ouça por tanto desatino!) levou-se

à poesia.

E um ou outro leitor mais atento saberá localizar

o que em João é dentro.


fevereiro 22, 2009

portal-23

 

 

 

 

 

 

 

Palimpsesto para Hilda Hilst

Por Renata Cabral

 

Para ela e escrita é um sobressalto.

Avesso, urro, ungüento.

Vísceras que tocam a pauta.

Riso escancarado, porta aberta.

No entanto, açucena, nêspera, agave.

Uma desmesura no silêncio.

Um aguado de malva.

 

Tratado inconformado sobre a condição humana,

seus sofrimentos e limitações.

Idéia de Deus, “samsara”,

geometria de luz.

Elo entre o existencialismo niilista

e o gozo da transcendência.

Lírica atópica, terceira margem.

 

E quem é ela?

Dois olhos mareados dois rios dois abismos,

fixos no que não é fixidez,

permanentes na inconstância.

Tristes.

Povoados de sombras e funduras.

Tristes.

 

Hillé – está há muitos anos esquecida de si mesma. E de tudo o mais, olha as árvores e chora, lembra-se de ter sido árvore. E sente piedade. Foi também estes bichos pequenos: doninha rato lagartixa. Ah. E sente compaixão por todos eles.

 

Irmã H – que asperezas de tato descobri nas coisas de contento delicado. andei na direção oposta aos grandes ventos. Nos pássaros mais altos meu olhar de novo incandescia. Ah, fui sempre a das visões tardias.

 

Ruisis, Ruiska, Rukah – o meu de dentro é turvo, o meu de dentro quer se contar inteiro.

 

Quem é ela?

Aquela que colhe crisântemos perto da fonte,

que traz um dizer de alturas

e nomeia a morte chama candeia.

Aquela que aceita da língua

justamente o que lhe escapa

e reiventa recodifica,

numa volúpia que abrasa os arcaísmos

e lacera as conformidades.

Aquela que busca Deus pelos inversos:

porco, charco, imundícies

– skato logos, escato logos.

Lasciva, elegíaca, ardilosa.

Aquela Agda se impondo corrosiva.

Aquela que dribla a crítica

e toma vinho tinto todos os dias.

Aquela que escreve em todos os gêneros,

e em todos, poesia.

Aquela dos cantares de perda e predileção.

 

Aquela Koyo – emudeci. Vestíbulo do nada. Até… onde está a lacuna. Vê, apalpa. A fonte. Chega até o osso. Depois a matéria quente, o vivo. Pega os instrumentos, a faca e abre. Qdós – sobre o leito um punhal. Sobre o leito os textos de Plotino: Beleza é violência e estupefação.

 

Quem é ela?

Buda e Freud reunidos nas suas odes mínimas.

Risco de Beckett, Kafka, Bergman…

alguma coisa de Ionesco na dramaturgia.

Reinvenção de Orpheu e uma vontade pungente

de falar sobre o tempo,

suspenso, matemático, fluido…

sobre o incognoscível.

Lori Lamby, Joyce e o sedutor.

Ela, gótica e rubra

perambulando pela rua de coturno.

Em seu sítio com seus cães

– seu encontro com Kazantzakis.

A obscena senhora D.

Duas senhoras encharcadas de riso…

e o sinistro das horas

a desvelar sussurros gritos polifonias.

 

Hilda

uma casa de águas. Romã baba alcaçus, doçuras e iras.

 

Hilst

prisma cal amavisse; senhora-menina com seus olhos de cão.