janeiro 20, 2011

Ganhei um poema do Boave, alegria silvestre em regato de rio; compartilho:


magnólia

para renata cabral


assobia na palavra sem vértice

e cola dois gritos no espelho

quem é ela?

sorri de pálpebras abertas

e refresca mormaços de chão

quem é?

lê poemas para cadelas no cio

engravida gravetos

e nina lápis de cor

quem?

salva canora de palmas a pino

alegria silvestre em regato de rio

magnólia.

Flávio Boaventura, janeiro de 2011.

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janeiro 20, 2011

(…) sempre preferi o inverno ao verão em Istambul. Adoro o cair da noite na época em que o outono já se transforma em inverno, quando as árvores nuas tremem ao vento norte e as pessoas envergando seus casacos e paletós pretos correm para casa pelas ruas que escurecem. Adoro a melancolia dominante quando contemplo as paredes dos antigos prédios de apartamentos e as fachadas escuras dos maltratados e decaídos casarões de madeira precisados de pintura; só em Istambul encontrei essa textura, esses matizes.

(…)

Existem lugares – em Tepebasi, em Galata, Fatih e Zeyrek, em algumas aldeias à beira do Bósforo, nas ruas secundárias de Üsküdar – onde o nevoeiro preto-e-branco que venho tentando descrever ainda se manifesta de forma evidente. Nas manhãs enfumaçadas de neblina, nas noites de vento e chuva, pode-se vê-lo envolver as cúpulas das mesquitas em que os bandos de gaivotas fazem seus ninhos; pode-se vê-lo também nas nuvens de fumaça dos exaustores, nas espirais de fuligem emitidas pelas chaminés dos fornos, nas latas de lixo enferrujadas, nos parques e jardins que ficam vazios e descuidados durante a estação fria e nas pessoas que correm para casa em meio à lama e à neve nas noites de inverno. São essas as alegrias tristes em Istambul em preto-e-branco: as fontes arruinadas que não funcionam há séculos; os bairros pobres com suas mesquitas esquecidas; as multidões repentinas de crianças que saem das escolas com seus aventais pretos de gola branca; os velhos e cansados caminhões cobertos de lama; as pequenas mercearias escurecidas pela idade, pela poeira e pela falta de freguesia, as dilapidadas lojinhas de bairro repletas de desempregados sem esperança; as muralhas da cidade, que desmoronam como se fossem ruas de paralelepípedos na vertical; as entradas de cinemas que começam, depois de algum tempo, a ficar todas idênticas; os restaurantes pequenos; os jornaleiros das calçadas; os bêbados que vagueiam pelo meio da noite; os lampiões de rua com sua luz fraca; as barcas que cruzam o Bósforo de um lado para o outro e a fumaça que sobe das suas chaminés; a cidade coberta de neve.

(…) É a resignação que alimenta a alma introspectiva de Istambul. Para ver a cidade em preto-e-branco, para ver o nevoeiro que paira sobre ela e inspira a melancolia que seus habitantes adotaram como seu destino comum, você só precisa chegar de avião de alguma rica cidade ocidental e rumar diretamente para as ruas lotadas; se for inverno, todo homem que passar pela ponte Gálata estará usando as mesmas roupas claras, surradas, sombrias. Os istambullus da minha era abandonaram os vermelhos, verdes e alaranjados brilhantes de seus ancestrais ricos e orgulhosos (…) existe em sua densa tristeza uma sugestão de modéstia. É assim que você se veste numa cidade preto-e-branco, parecem dizer; é assim que você veste luto por uma cidade que vem declinando há 150 anos.

PAMUK, Orhan. Istambul. Memória e cidade. Tradução Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 20007


janeiro 5, 2011

Marcelo Tas: o livro é a base da comunicação digital