abril 27, 2011

Bom bocado de Manuel Bandeira:


A realidade e a imagem


O arranha-céu sobe no ar puro lavado pela chuva.

E desce refletido na poça de lama no pátio.

Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,

Quatro pombas passeiam.

O rio


Ser como o rio que deflui

Silencioso dentro da noite.

Não temer as trevas da noite.

Se há estrelas nos céus, refleti-las.

E se os céus se pejam de nuvens,

Como o rio as nuvens são água,

Refleti-las também sem mágoa

Nas profundidades tranquilas.


A lua


A proa reta abre no oceano

Um tumulto de espumas pampas.

Delas nascer parece a esteira

Do luar sobre as águas mansas.

 
O mar jaz como um céu tombado.

Ora é o céu que é um mar, onde a lua,

A só, silente, louca, emerge

Das ondas-nuvens, toda nua.

Morada Terrestre

Jorge Carrera Andrade

Tradução: Manuel Bandeira

 

Habito um castelo de cartas,

Uma casa de areia, um edifício no ar,

E passo os minutos esperando

O desmoronamento do muro, da chegada do raio,

O correio celeste com a última notícia,

A sentença que voa numa vespa,

A ordem como um látego de sangue

Dispersando ao vento uma cinza de anjos.

Então perderei minha morada terrestre

E me encontrarei nu novamente.

Os peixes, os astros,

Remontarão o curso de seus céus inversos.

Tudo o que é cor, pássaro ou nome,

Volverá a ser apenas um punhado de noite,

E sobre os despojos de cifras e plumas

E o corpo do amor, feito de fruta e música,

Baixará por fim, como o sonho ou a sombra,

O pó sem memória. 


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abril 4, 2011

 

Há uma fome mais funda que a fome, mais exigente e voraz que a fome física: a fome de sentido e de valor; de reconhecimento e acolhimento; fome de ser – sabendo-se que só se alcança ser alguém pela mediação do olhar alheio que nos reconhece e valoriza. Esse olhar, um gesto escasso e banal, não sendo mecânico – isto é, sendo efetivamente o olhar que vê – consiste na mais importante manifestação gratuita de solidariedade e generosidade que um ser humano pode prestar a outrem. Esse reconhecimento é, a um só tempo, afetivo e cognitivo, assim como os olhos que veem e restituem à presença o ser que somos não se reduzem ao equipamento fisiológico. O olhar (ou a modalidade de percepção fisicamente possível) que permite ao ser humano o reencontro com sua humanidade é o espelho pródigo que restaura a existência plena, reparando o dano causado pelo déficit de sentido, isto é, pela invisibilidade. Esse olhar vê o outro, restituindo-lhe – ao menos potencialmente – o privilégio da comunicação, do diálogo, da troca de sinais e emoções, da partilha de valores e sentido, da comunhão na linguagem. Esses olhos que veem tecem entre as pessoas a ligação que é a matriz do que chamamos sociedade.

SOARES, Luis Eduardo.  Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p.215/216



abril 1, 2011

Eu venho de muito longe e trago aquilo que acredito ser uma mensagem partilhada pelos meus colegas escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. A mensagem é a seguinte: Jorge Amado não foi apenas o mais lido dos escritores estrangeiros. Ele foi o escritor que maior influência teve na génese da literatura dos países africanos que falam português.

(…)

É preciso dizer que o escritor baiano não viajava sozinho: com ele chegavam Manuel Bandeira, Lins do Rego, Jorge de Lima, Erico Veríssimo, Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e tantos, tantos outros.

(…)

Descobríamos essa nação num momento histórico em que nos faltava ser nação. O Brasil – tão cheio de África, tão cheio da nossa língua e da nossa religiosidade – nos entregava essa margem que nos faltava para sermos rio.

(…)

Na altura, nós carecíamos de um português sem Portugal, de um idioma que, sendo do Outro, nos ajudasse a encontrar uma identidade própria. Até se dar o encontro com o português brasileiro, nós falávamos uma língua que não nos falava. E ter uma língua assim, apenas por metade, é um outro modo de viver calado. Jorge Amado e os brasileiros nos devolviam a fala, num outro português, mais açucarado, mais dançável, mais a jeito de ser nosso.

 

Trechos de Sonhar em Casa, alocução no relançamento dos livros de Jorge Amado, em 2008.

COUTO, Mia. E se Obama fosse africano? E outras interinvenções. Editorial Caminho, 2009.