maio 29, 2012

Prece de Pescador

Roque Ferreira e J. Velloso

Que luz é essa
que vem lá do mar?
É a Senhora das Candeias
Mãe dos Orixás

Seu Adê resplandece
na lua cheia
Glória ê ê glória
Glória, Mamãe sereia 

Inaê por cima do mar prateou
por cima do mar mariô
por cima do mar incendiou

Eu pedi a mamãe que fizesse
do nosso amor uma prece de pescador
Pra que nas esquinas da vida
você seja saída pro meu amor

Morar…

Mas se a tristeza tem mira
Tua força me guia, meu caminho é o mar
E que me lancem às pedras
Yemanjá faz areia pra não machucar

Eu tava sonhando acordada
Mamãe sentou do meu lado e me falou
que aquela dor que doía
ia encontrar calmaria nos braços de outro amor

Paixão me fez marinheiro
Fez do meu cais meu saveiro e me navegou
saí cantando vitória
tristeza virou história de pescador.

Ê nijé nilé lodô
Yemanjá ô
Acota pê lê dê
Iyá orô miô.


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maio 27, 2012

Coloco aqui algumas imagens da Marcha das Vadias:

Em várias cidades do país,

mulheres se reuniram para marchar em nome da liberdade.

A violência contra a mulher é uma realidade em todo o mundo. Uma mulher é violentada nos EUA a cada dois minutos, menos de 37% dos casos vai a julgamento, apenas 5% dos criminosos passam algum tempo na cadeia. A África do Sul enfrenta o problema dos “estupros corretivos”.  Em alguns países, persiste a barbaridade da mutilação genital. O tráfico de mulheres atinge números cada vez maiores. No Brasil, os espancamentos, estupros e abusos são recorrentes e, geralmente, impunes! Ainda há diferenças salariais e assédio sexual no trabalho; as mulheres são vítimas de abuso até nas delegacias, onde, em tese, deveriam ser protegidas.

Devemos mesmo tomar as ruas, as redes e qualquer espaço possível para reivindicação e  protesto.

Essa imagem é lindíssima!

E me lembrou Leila Diniz!

Meu corpo

Minha Revolução.

A entrevista que Leila Diniz concedeu ao Pasquim, autêntica e singular, cutucou a direita e seus “bons costumes”.

Resultado: escândalo; contrato com a Rede Globo cancelado e  inimizade dos militares. 

Quando fotografada de biquíni e grávida, outro escândalo, alardeado pela tradicional família, sempre aliada aos retrógrados assassinos e torturadores da ditadura. O discurso é bem parecido com o de Bolsonaro e Malafaia – “bons costumes” aliados à opressão e à rasura dos direitos humanos.

Mas, do fato e da foto, nasceram várias Leilas Brasil afora.

 Há uma banalização da violência nos lares brasileiros, o que dificulta qualquer processo de transformação. Como o ser humano é complexo (pode ser num momento afetuoso e em outro extremamente agressivo) e é da família, as humilhações ou mesmo os abusos sexuais e psicológicos são aceitos com uma falsa tranquilidade. São, na maioria dos casos, silenciados.

Grande parte das famílias brasileiras confunde passividade com pacifismo. E finge não enxergar que a violência psicológica, caracterizada por rejeição, discriminação e humilhação, causa danos irreversíveis. 

Eu não sou mais quem/você deixou, amor/ vou à Lapa/decotada/viro todas/beijo bem.

A protagonista de Adriana Calcanhotto toma as ruas….

Vale lembrarmos ainda das lutas pela legalização do aborto e casamento civil igualitário, além do combate incessante à pedofilia e à violência doméstica…

A “Marcha das Vadias” (SlutWalk em inglês) começou em Toronto, em abril de 2011, em resposta ao insulto de um oficial da Polícia local que sugeriu que as mulheres iriam permanecer seguras se evitassem se vestir como ‘vadias’.

A Lola escreveu sobre a marcha em seu blog, vale demais a leitura!

Entrevistei a feminista e jornalista Maíra Kubk Mano quem quiser ler, basta clicar aqui

 


maio 17, 2012

Pontual e precisa

(com a deliciosa polissemia que o termo carrega),

a poesia de Rui Knopfli:

 

Amputação

Algo, em mim, está morto.

O lado direito inerte, ausente

de mim está alheio.

Do lado esquerdo

o fito,

como se a um outro olhasse.

Metade de mim  persiste,

vive

e contempla algo, ardendo,

estiolando,

que em mim está morto.

Um perfil que apodrece

e eu vivendo

e vendo ausentar-se de mim

algo que em mim está morto

definitivamente.

No escuro cerne da floresta,

com sorrisos dependurados à entrada,

degola-se uma ave.

Por enquanto mais nada, senão

o torvo tinir dos talheres

no banquete da morte impossível.

Trecho de Lírica para uma ave.

Ginástica Aplicada

 –

Meu verso cínico é minha terapêutica

e minha ginástica. Nele me penduro

e ergo, em sua precisão de barra fixa.

Nele me exercito em pino flexível,

sílaba a sílaba, movimento controlado

de pulso, e me volteio aparatoso

na pirueta lograda, no lance ritmado.

 –

Há um sorriso discreto em minha segurança.

 –

Porém, se às vezes me estatelo, folha seca

(o verso é difícil e escorregadio), meu verso,

como de vós, ri-se de mim em ar de troça.

Não entro em forma, não acerto o passo,

não submeto a dureza agreste do que escrevo

ao sabor da maioria.

Trecho de Cântico Negro, em diálogo com o poeta José Régio.

Antologia Poética , organizada por Eugênio Lisboa, Editora UFMG, 2010.

Livro para carregar na bolsa, pra deixar pertinho da cama,

pra caminhar com a gente debaixo da chuva fina, 17 graus em Belo Horizonte.

Os sujeitos do poema são de uma sinceridade rascante; a edição, a versificação e estrofação, bem como os desfechos, revelam a artesania e a consciência lírica do autor.                   


maio 10, 2012

Fotografias extraídas do livro Imagens Fiéis, de José Bassit.

Primorosa edição da Cosac Naify.

tradições em movimento

andar com fé eu vou


maio 10, 2012

Escuto que escuto a canção Um ser de luz, do poeta Paulo César Pinheiro, feita para Clara Nunes, na versão de Mariene de Castro (cd Tabaroinha). Linda homenagem dessa baiana, a doce filha de Oxum, largamente comparada à guerreira da utopia*! E comovente homenagem de Paulo, mesmo agnóstico, reverenciou a religiosidade da esposa, de uma maneira leve, tocante e singular. Ele, que sofreu os terríveis ataques de uma imprensa mórbida e irresponsável no período em que Clara faleceu. E teve que segurar toda a barra, praticamente sozinho, todo o circo que foi armado, tanto em frente ao hospital, como no velório. Ele, que pediu tanto para Clara desistir da cirurgia, foi brutalmente acusado e perseguido. Mas, está tudo aí, na canção, seu amor, seu lirismo, seu olhar sobre Clara – um ser de luz!

Ouvi tanto Clara Nunes com o Jairo. Eu sempre ficava impressionada com sua capacidade de saber todas as letras de cor, era incrível, o danado não errava uma. Império Serrano roxo, conhecia samba-enredo e data, eu adorava testá-lo, agora canta o de 83, Jairo… ele ria e cantava. Saudade de você, meu nego –  que falta faz sua alegria – das suas mãos grandes esmagando as minhas, pequeninas. Saudade dos nossos papos na cantina da Letras, suas ideias mirabolantes.

É estranho porque não temos tempo nem para sofrer a perda, não deixam! Temos compromissos, horários, patrões, alunos… muita cobrança e expectativa… pouca solidariedade… As pessoas também não têm tempo, muito menos paciência para a tristeza, afinal, a tristeza é chata, cutuca e incomoda nosso medo da morte, nosso medo de pensar o que é a vida, nosso medo de parar e escutar o ritmo do nosso próprio corpo, medo de sentir a roda da vida (a gira, a ciranda da vida, filosofa Martinho da Vila!).

Afinal, precisamos vender a cara feliz das redes sociais e gerar riqueza para os outros, para os que nos exploram cheios de sorrisos. Não há tempo para vivenciar o luto. E ainda ouvimos todo aquele papo de que trabalhar distrai, faz bem, melhor do que ficar deprimido em casa. Ora, não se trata de depressão, trata-se de tristeza. Depressão é justamente a doença desses tempos insanos em que ser “feliz” e produtivo consistem na tônica, na palavra de ordem do capitalismo global, fantasiado de democrático. Não vivenciar a tristeza, na minha opinião, é que pode acarretar depressão, cansaço, desistência, entrega.

Essa canção é tão a sua cara, meu querido. Canto aqui com Mariene, bem alto, com a sensação de que pode chegar a você.

  

Um Ser de Luz

 

Um dia
Um ser de luz nasceu
Numa cidade do interior
E o menino Deus lhe abençoou
De manto branco ao se batizar
Se transformou num sabiá
Dona dos versos de um trovador
E a rainha do seu lugar

Sua voz então a se espalhar
Corria chão
Cruzava o mar
Levada pelo ar
Onde chegava espantava a dor
Com a força do seu cantar

Mas aconteceu um dia
Foi que o menino Deus chamou
E ela se foi pra cantar
Para além do luar
Onde moram as estrelas
E a gente fica a lembrar
Vendo o céu clarear
Na esperança de vê-la, sabiá

Sabiá
Que falta faz sua alegria
Sem você, meu canto agora é só
Melancolia

Canta meu sabiá,
Voa meu sabiá,
Adeus meu sabiá…
Até um dia…

*subtítulo da biografia Clara Nunes. Guerreira da Utopia, de Vagner Fernandes. Rio de Janeiro, Ediouro, 2007. Ótima dica para você conhecer a vida da cantora e se livrar dos diversos erros da mídia, impressos como verdade.