junho 28, 2009

– Omissão e covardia contribuem para a intolerância.
e brutalidades cotidianas –

Alguém pensa que os horrores existem sozinhos,
e diz a sociedade, o grupo, a organização, o sistema…
Ora, e nós não somos a sociedade?

Alguém se calou diante dos campos de concentração.
Não ouviu barulho? Tiro? Grito? Bomba? Trem?
Não viu fumaça? Movimento? Soldados? Cadáveres?
Não sentiu o cheiro dos corpos apodrecendo no pátio?

Alguém deu coronhadas, em nome do seu país, até a criança de joelhos sangrar.
Alguém estuprou as adolescentes do país rival.
Alguém humilhou soldados de guerra e os barbarizou.
Alguém fuzilou homens mulheres crianças
e passou as mãos nos lábios e dormiu à noite e deu risada no dia seguinte.
E tomou um trago de vodca.

Alguém gritou no edifício: é judeu, levem-no.
Acreditava em quê?
Delatou-o como quem enxuga as louças e varre a poeira do chão.

Alguém expulsou o filho de casa porque ele gostava de outro rapaz
e lavou as mãos.
E discursou em nome da moral e da ética,
e deu um beijo de boa noite na esposa muda, inexata.

Alguém saiu em defesa dos militares
e entregou padres suspeitos de comunismo.
E fez pose de patriota, e sentiu-se temente a Deus,
e dobrou a esquina, e trabalhou mais de oito horas por dia
por um salário medíocre,
até morrer de velho,
sem culpa ou remorso.

Alguém viu e fez que não.
Alguém calou.
E frequentou a missa, colocou a vasilha de sopa na mesa do jantar, criou os filhos,
abotoou a camisa do marido passada a ferro quente.

Alguém recebeu propina e gostou,
e recebeu de novo, e gostou ainda mais.
Comprou uma mansão em Brasília, uma em Salvador,
um apartamento em Paris, algumas cabeças de gado…
alguns atiradores profissionais e duas mulheres pralém da oficial –
cúmplice-calada,  no seu canto, com cara de vítima e roupa de grife.

Alguém bebeu para esquecer.
Alguém vendeu a bebida.

Alguém fechou a janela pra não ver.
Ligou a tv; xingou o governo, o repórter, a mãe do juiz.
Dormiu com sede de justiça, acordou pronta para o batente.
Falou mal da colega, destratou o porteiro,
comprou um cd pirata da Ivete Sangalo, e
uma sandália de nove e noventa, carismática, felicidade-axé, não enxergou a faxineira,
trabalhou até 19 horas,
e trepou com o marido da melhor amiga.

Alguém comeu o pão que o diabo amassou.
Alguém ficou sem comer.

Alguém não ouviu os murros socos pontapés
gritos, mais tarde urros sussurros gemidos
e um silêncio sujo de sangue.

Alguém não viu o olho roxo, os ombros caídos e a vontade de não existir.

Alguém não viu a menina-acuada-triste-soturna-calada
e a boneca sem cabeça, com uma só perna e os braços revirados,
largada no sofá.
Alguém não percebeu seus pesadelos e seus olhos ensimesmados

Alguém viu a menina com medo temor pânico
e gozou
Alguém não viu sua filha vestida de medo e os olhos fixos no instante.

Alguém.

SILÊNCIO!

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junho 23, 2009

Paixão. Só dela cresce

o fôlego de um rumo.

(Lupe Cotrim Garaude)


junho 23, 2009

Estou triste aqui. Mora Fuentes morreu;

soube só ontem.

Quando estive na Casa do Sol, julho de 2007,

ele e Olga me receberam muito bem,

fui junto ao Rodrigo, amigo querido,

companheiro de leituras hilstianas, há anos.

 

Mora Fuentes era Môra na minha voz tímida.

Curiosamente não me corrigiu,

nunca exigiu que pronunciasse Móra.

Ao contrário, ouviu com atenção meus comentários de estudante, respondeu todas as minhas perguntas, até as mais ingênuas…

Conversamos sobre cachorros, projetos, teatro, leituras, interpretações.

Unânimes na paixão pela voz de Maria Bethânia,

sua interpretação belíssima de Ariana para Dionísio,

e dissonantes em relação à de Zélia Duncan

– eu sempre impliquei com a respiração da cantora,

que parece atropelar os versos.

 

Confiou-me uma tarde inteira na biblioteca de Hilda Hilst,

…passei as mãos sobre os livros com uma espécie de devoção,

a autora estava ali,

em cada comentário, em cada escolha…

(quantos livros de física e filosofia!!!)

Fiquei miúda,

trêmula-radiante.

 

Mora respeitou meus silêncios, medos e ansiedades.

Presenteou-me com sua Fábula de um rumo

e com Tu não te moves de ti.

Mandou-me por email o teatro completo de Hilda Hilst

(ainda não tinha saído pela Editora Globo e eu precisava muito da peça O verdugo).

Também por email trocamos muitas conversas,

e leituras. Ele acompanhou meus passos e tropeços.

Nunca consegui agradecer com exatidão sua extrema generosidade, mas ele nem parecia se importar…