fevereiro 28, 2013

renajairojana0001

Janaína Assis, Jairo Rodrigues e Renata Cabral.

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fevereiro 27, 2013

você nasceu dia 29 de fevereiro, raro em cada detalhe, meu amigo,

meu doce-explosivo amigo.

estava relendo seu livro, e eu estou ali

também…

sou parte do muito que mora no seu olhar

sua casa de águas, anis, alcaçuz

 

anis 2

Minha merenda são meus chicletes.

Nos intervalos, vinte centavos me bastam.

 

É vivo

o musgo envolto na casca daquela árvore morta.

o poeta cria frasipalavra,

labirinto de parede porosa

e a rosa, no peito do poeta

é metáfora de buraco à bala.

 

{[Atr(aves)]sada}, espinha de bagre,

acupuntura com fibra de vidro

conecta, caótico-cosmológica,

o traçado incerto da estada.

 

O fio é de navalha fria, fino

a ponta da pena tinge em púrpura

o linho do peito e da pauta

 

um filete, um bilhete, a carta,

riacho de eus brotando no papel,

o mar-lavra

anuncia, lá vem poesia.

 

[Obrigado, Rena.]

]-

O sertão também tem céu

e as constelações trocam de lugar.

Deuses bailam entre as estrelas,

elas não caem.

2º Ato

para Renata Cabral

 

Banha-se.

Limpa a tinta dos cabelos

         o corpo dos pelos

queima lenços… lençóis.

 

Sem ensaio,

deixa a porta aberta,

sai,

arrisca a ficha.

Eu arrisco a ficha, poeta?

conchas

Lembro-me de quando lhe enviei um poema-resposta e você queria saber o que eram as cinerárias…2003, acho…

Resposta

            Para Jairo Rodrigues.

 

meia-noite.

nenhum eclipse para enfeitar essa nostalgia.

inexistência.

alguém grita?

 

alguém

cinerárias caídas no vazio.

você tem razão:

o resultado é zero.

o centro do centro do centro

ponto nulo de ligação.


folhas

não vou mentir, queria  te abraçar bem apertado e rir noite adentro, como fizemos tantas vezes aqui na varanda de casa, olhando o filete de céu entre edifícios, sonhando de mãos dadas, cantando Clara Nunes

mas não quero um post triste, é quase seu aniversário e você deve estar no colo doce de Oxum, nas folhagens de Oxossi, vibrando seus bemóis espectrais, de sol em sol.

Todos os poemas, exceto Resposta, são de Jairo Rodrigues, do livro Tempo de Reticências.

 


fevereiro 19, 2013

4 versões de fazer nada

para Aline Boches    

e Zé Eduardo

 

Henri MatisseHenri Matisse

(…) ao regressar a casa, em Maputo, deparei com dois jovens sentados no muro de minha casa e perguntei o que eles faziam ali. O primeiro respondeu: – Não estou fazendo nada. E o segundo acrescentou: – Pois eu estou aqui a ajudar o meu amigo.

Haver alguém que ajuda um outro a não fazer nada é do domínio da mais pura metafísica. Possivelmente não se tratava de não fazer nada, mas da árdua tarefa de fazer o Nada.

Mia Couto, do texto Encontros e Encantos: Rosa em Moçambique.

Lasar SegallLasar Segall

 

Pop Wu Wei

O movimento está para o repouso 
Assim como o sofrimento está para o gozo
O sofrimento está para o gozo
Assim como o movimento está para o repouso.

Por isso eu faço tudo pra não fazer nada
Ou então não faço nada pra tudo fazer
Eu gosto de deixar a onda me levar sem nadar
Deixar o barco correr
Mas como o povo diz que Deus teria dito
“Faz a tua parte que eu te ajudarei”
Melhor considerar o dito por não dito e dizer
“Tudo que eu puder farei”

O movimento está para o repouso 
Assim como o sofrimento está para o gozo
O sofrimento está para o gozo
Assim como o movimento está para o repouso

Meu bem
Eu sei que posso estar cantando prosa
E como é perigosa a minha afirmação
Sair do movimento bem que pode ser um tormento
Eis outra constatação
O fato é que eu sou muito preguiçoso
Tudo que é repouso me dará prazer
Se Deus achar que eu mereço viver sem fazer nada
Que eu faça por merecer.

 

* Wu Wei = na filosofia chinesa, a ação sem intenção.

Gilberto Gil. Disco Quanta.