outubro 31, 2011

Carlos Drummond de Andrade nasceu no dia 31 de outubro de 1902 e não morreu nunca mais

Diante de sua obra, sou aquela criança que quer adentrar, entre curiosa e amedrontada, a casa da doida, sou a adolescente que quer dinamitar a ilha de Manhattan, sou apenas um homem pequenino à beira de um rio…

À benção, poeta!

Museu da Inconfidência

 

São palavras no chão

e memória nos autos.

As casas inda restam

os amores, mais não.

E restam poucas roupas

sobrepeliz de pároco,

a vara de um juiz,

anjos, púrpuras, ecos.

Macia flor de olvido,

sem aroma governas

o tempo ingovernável.

Muros pranteiam. Só.

Toda história é remorso.

 

ANDRADE, Carlos Drummond. Claro Enigma. P. 287

Confissão

 

É certo que me repito,

é certo que me refuto

e que, decidido, hesito

no entra-e-sai de um minuto.

É certo que irresoluto

entre o velho e o novo rito,

atiro à cesta o absoluto

como inútil papelito.

É tão certo que me aperto

numa tenaz de mosquito

como é trinta vezes certo

que me oculto no meu grito.

É tudo certo e prescrito

em nebulosos estatuto.

O homem, chamar-lhe mito

não passa de anacoluto.

 

ANDRADE, Carlos Drummond. As impurezas do Branco p. 441/442

 

Cerâmica

 

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.

Sem uso,

Ela nos espia do aparador.

 

ANDRADE, Carlos Drummond. Lição de coisas. p. 403.

O descanso do poeta. Fotografia de José de Almeida e Maria Flores.

 

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

    Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

    mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

    És todo certeza, já não sabes sofrer.

    E nada esperas de teus amigos.

    Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

    Teu ombros suportam o mundo

    e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

    As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

    provam apenas que a vida prossegue

    e nem todos se libertaram ainda.

    Alguns, achando bárbaro o espetáculo,

    prefeririam (os delicados) morrer.

    Chegou um tempo em que não adianta morrer.

    Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

    A vida apenas, sem mistificação.

ANDRADE, Carlos Drummond. Sentimento do mundo. p. 131.

Antologia Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979.

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outubro 28, 2011

Apaixonei-me pela obra do Cazuza aos 13 anos. Pedi para meus pais o LP Só se for a dois no aniversário de 14, ganhei!

Segui algumas das pistas do poeta da canção: fui ler Rimbaud, Clarice, Neruda… e não parei mais…

Certa vez, a revista Veja publicou, junto a uma foto esquálida, a seguinte manchete: “Cazuza. Uma vítima da Aids agoniza em praça pública.” Um horror! Chocado com a capa, Caju passou mal e foi hospitalizado. Os artistas se uniram, assinaram um manifesto contra aquele sensacionalismo.

Historicamente retrógrada, a revista já me causou repulsa várias vezes. Basta nos lembrarmos da cobertura das eleições de 1989… da briga sórdida com o Luis Nassif… da cobertura do referendo de 2005… da análise torta do filme Tropa de Elite… e por aí vai… Chegou ao requinte, num editorial, de chamar Che Guevara de porco imundo e de eleger para “embasar” o texto dois dos militares que perseguiram e assassinaram o guerrilheiro…

Reproduzo aqui o manifesto contra a última publicação da revista:

A Veja NÃO nos representa

O grupo que ocupa o Vale do Anhangabaú desde o último dia 15 de outubro para se manifestar contra o sistema político-econômico vigente recebeu com indignação a matéria de capa da edição de 26 de outubro da revista Veja. A matéria “Dez motivos para se indignar com a corrupção” demonstra mais uma vez a tendência conservadora do conselho editorial do grupo Abril, e sua prática de manipulação da informação pelo método de omissão e ênfase. A manipulação de símbolos é flagrante, por exemplo com o uso descontextualizado da imagem da máscara de Guido Fawkes, que se tornou símbolo dos levantes anticapitalistas no mundo todo, visando canalizar a insatisfação dos 99% da população para as pautas que interessam ao privilegiado grupo econômico da qual a publicação é porta-voz: o empresariado, sobretudo paulista.

É inegável que os movimentos autônomos que convergem em acampadas em cidades como Belém, Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, em consonância com os levantes internacionais, condenam qualquer forma de corrupção. Entretanto aquilo contra o qual lutamos é uma doença muito maior, a corrupção é apenas um de seus desagradáveis sintomas. A revista Veja usa suas páginas para atacar o Governo Federal e fazer “oposição” de Direita. Combater a corrupção como se fosse causa e não consequência é alimentar o mal ou, para dizer o mínimo, enxugar gelo. O sistema político vigente, as regras do jogo em si, é que propiciam, se não incentivam, práticas de corrupção.

Mas para além do desvio de dinheiro público por debaixo dos panos, existem outras formas de alocação de recursos públicos para interesses privados, como no caso da construção da usina de Belo Monte, que terá 80% do seu custo de R$ 30 Bilhões bancado com dinheiro público, mesmo que os únicos beneficiados com a obra sejam as empreiteiras e as empresas estrangeiras que exploram o alumínio na região Norte. Apenas 10% desse alumínio fica no Brasil; quanto aos lucros, a maior parte fica nas mãos dessas corporações transnacionais e de uma pequena elite política brasileira. Sobram para os brasileiros apenas a conta para pagar, e o sofrimento causado pelos impactos sociais e ambientais.

Outro modo de apropriação do Estado pelo interesse particular é a aprovação de leis como o novo Código Florestal, que tem sido tocado como o rolo compressor da bancada ruralista. O prejuízo ambiental será de todos, uma vez que todos terão menos oxigênio, nascentes de rios e biodiversidade. Enquanto os exportadores de soja, milho e cana, mais dinheiro em suas contas.

As acampadas anticapitalistas como a ocupação do Viaduto do Chá apelidada provisoriamente como Acampa Sampa contestam o sistema de Democracia Representativa, por entender que o povo tem o direito de participar diretamente da discussão e decisão políticas. Constatamos que os políticos não nos representam. Uma vez eleitos, representam apenas a seus próprios interesses e aos daqueles que financiam suas campanhas.

Entretanto é importante notar que o que Veja propõe não é uma transformação política que impeça tais práticas, mas, ao contrário, gostaria de ver os magnatas da indústria e comércio, marcadamente associadas a PSDB e DEM, no comando do Estado para arbitrar tanto quanto as elites agrárias às quais o atual governo petista se aliou.

Essa postura é evidenciada pelo fato de que a revista dá voz à Fiesp, mas não entrevistou sequer um dos participantes dos movimentos de “indignados” das ocupações públicas. A revista, que dá ênfase à corrupção no atual governo federal, não retoma os escândalos dos governos passados e apresenta propostas extremamente neoliberais como remédio para a corrupção. Veja chega colocar no mesmo balaio dos corruptos, também aposentados, pensionistas e pessoas que recebem bolsas do governo. O que Veja quer é defender a diminuição de gastos sociais e a demissão de milhares de funcionários públicos e diminuir a carga tributária paga por seus patrocinadores.

Veja tenta confundir o leitor, fazendo parecer que a sua luta específica contra o Governo Dilma e a favor dos empresários é a luta dos acampamentos de indignados. A Veja não nos representa. Nossa luta não é simplesmente contra o governo Dilma. Nossa luta é contra o Capital e os governos de um modo geral. Queremos a mudança do sistema e a transição para uma sociedade em que todos tenham vez e voz. Nossa luta é também contra os governos estaduais e municipais do bloco político sustentado pelo grupo Abril.

Nossa luta por Democracia Real é também uma luta contra empresas de comunicação manipuladoras do processo político, como a própria Veja. Enquanto houver essa democracia indireta e o capitalismo selvagem, haverá corrupção.

Não queremos um estado reduzido para ver o poder ainda mais concentrado nas mãos de empresários. Queremos o poder nas mãos do povo, e o povo plenamente livre, decidindo junto os destinos de suas comunidades. É por isso que não concordamos com qualquer reforma política que sirva para manter e aumentar o poder daqueles que já concentram poder, queremos a transformação completa do sistema.

Discordamos também quando a revista afirma que o Brasil não está em uma situação tão grave quanto a dos países europeus que enfrentam a crise do capital. O que acontece é que o Brasil se acostumou com a crise e com as suas gritantes contradições. Basta olhar a situação dos sem-teto, dos sem-hospital, dos sem-escola, dos sem voz em nosso país para ver que a situação do Brasil que cresce, cresce para poucos. Chegamos a essa situação não simplesmente por causa da corrupção, mas pela exploração do homem pelo homem, que já dura mais de cinco séculos.

Publicado originalmente em http://15osp.org/2011/10/26/a-veja-nao-nos-representa/


outubro 20, 2011

Exemplo


Um vendaval

despojou todas as folhas das árvores ontem à noite
com a excepção de uma folha
deixada
a baloiçar sozinha num ramo nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor –
gosta da sua piadinha de vez em quando.

Elogio dos sonhos

Nos sonhos

eu pinto como Vermeer van Delft.

Falo grego fluente

e não só com os vivos.

Dirijo um carro

que me obedece.

Tenho talento,

escrevo grandes poemas.

Escuto vozes

não menos que os mais veneráveis santos.

Vocês se espantariam

com minha performance ao piano.

Flutuo no ar como se deve

isto é, sozinha.

Ao cair do telhado

desço de manso na relva.

Respiro sem problema

debaixo d’água.

Não reclamo:

consegui descobrir a Atlântida.

Fico feliz de sempre poder acordar

pouco antes de morrer.

Assim que começa a guerra

me viro do melhor lado.

Sou, mas não tenho que ser

filha da minha época.

Faz alguns anos

vi dois sóis.

E anteontem um pinguim.

Com toda a clareza.

SZYMBORSKA, Wisława. Poemas. Trad. de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


outubro 14, 2011

Eu não preciso escrever muito, as canções já dizem…

Vou apenas, como ouvinte atenta de Caetano Veloso, desde menina, linkar alguns temas, cenas, críticas…

Antes, duas observações:

Morro de preguiça daqueles que se (pre)ocupam mais com a celebridade do que com a obra… Há também os que não conhecem nada de nada, reproduzem, tropeçando nos versos, a canção Sozinho, de Peninha, e querem analisar Caetano…um vazio!!!

Achei um caderninho daqueles de garota, letra redondinha, com um glossário-Caê. Bacana demais! Não me  lembrava mais dessas anotações, eu devia ter uns 11 anos e queria avidamente compreender as canções…

Enquanto os homens exercem/Seus podres poderes/Motos e fuscas avançam/Os sinais vermelhos/E perdem os verdes/Somos uns boçais... (Podres Poderes)

e

Baiano burro nasce, cresce e nunca pára no sinal/E quem pára e espera o verde/É que é chamado de boçal (“Vamo” Comer)

e

Tem um Gol que ela mesma comprou/Com o dinheiro que juntou/Ensinando português no Central/Salvador, isso é só Salvador/Sua suja Salvador/E ela nunca furou um sinal/Isso é legal… (Neide Candolina)

O que incomoda o poeta

E a cidade, a baía da cidade//A porcaria da cidade/Tem que reverter o quadro atual/Pra lhe ser igual (Neide Candolina)

e

E o cano da pistola/Que as crianças mordem/Reflete todas as cores/Da paisagem da cidade/Que é muito mais bonita/E muito mais intensa/Do que no cartão postal.  (Fora da Ordem)

e

O furto, o estupro, o rapto pútrido/O fétido seqüestro/O adjetivo esdrúxulo em U/Onde o cujo faz a curva/(O cu do mundo, esse nosso sítio) (O cu do mundo)

Cutucadas certeiras

O padre na televisão/Diz que é contra a legalização do aborto/E a favor da pena de morte/Eu disse: não! que pensamento torto! (“Vamo” Comer)

e

Veados americanos trazem o vírus da AIDS/Para o Rio no carnaval/Veados organizados de São Francisco conseguem/Controlar a propagação do mal/Só um genocida potencial/- de batina, de gravata ou de avental -/Pode fingir que não vê que os veados/- tendo sido o grupo-vítima preferencial -/Estão na situação de liderar o movimento/Para deter a disseminação do HIV. (Americanos)

e

Será que nunca faremos/Senão confirmar/A incompetência/Da América católica/Que sempre precisará/De ridículos tiranos/(…)/ Ou então cada paisano/E cada capataz/Com sua burrice fará/Jorrar sangue demais/Nos pantanais, nas cidades/Caatingas e nos gerais. (Podres Poderes)

e

E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado/Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer/Plano de educação que pareça fácil/Que pareça fácil e rápido/E vá representar uma ameaça de democratização/Do ensino do primeiro grau/E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital/E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto/E nenhum no marginal/E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual/Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco/Brilhante de lixo do Leblon/E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo/Diante da chacina//(…)/ E quando você for dar uma volta no Caribe/E quando for trepar sem camisinha/E apresentar sua participação/inteligente no bloqueio a Cuba/Pense no Haiti, reze pelo Haiti… (Haiti)

e

Purificar o Subaé/Mandar os malditos embora/Dona d’água doce quem é?/Dourada rainha senhora/Amparo do Sergimirim/Rosário dos filtros da aquária/Dos rios que deságuam em mim/Nascente primária/Os riscos que corre essa gente morena/O horror de um progresso vazio/Matando os mariscos e os peixes do rio/Enchendo o meu canto/De raiva e de pena. (Purificar o Subaé)

e

Depois de exterminada a última nação indígena/E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida/Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias/(…)/ E aquilo que nesse momento se revelará aos povos/Surpreenderá a todos, não por ser exótico/Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto/Quando terá sido o óbvio. (Um índio)

e

O fato dos americanos/Desrespeitarem/Os direitos humanos/Em solo cubano/É por demais forte/Simbolicamente/Para eu não me abalar// A Base de Guantánamo. (Base de Guantánamo)

Totalmente terceiro sexo

Rompe a manhã da luz em fúria a arder/Dou gargalhada, dou dentada na maça da luxúria/Pra quê?/Se ninguém tem dó, ninguém entende nada/O grande escândalo sou eu aqui, só. (Escândalo, canção feita pra Ângela Rô Rô)

e

O amor me pegou/E eu não descanso enquanto não pegar/Aquela criatura/Saio na noite à procura/O batidão do meu coração/Na pista escura (Gatas Extraordinárias, canção feita para Cássia Eller)

e

 (…) retribuo a piscadela/Do garoto de frete/Do Trianon/Eu sei o que é bom… (Fora da Ordem)

e

Menino do Rio/Calor que provoca arrepio/Toma esta canção/Como um beijo.  (Menino do Rio)

O piano de Mauro Continentino baila e nos tira, suave, da previsibilidade chata dos modismos. Nas terminações vocais,  a Janaína Assis parece nos contar um segredo, não há firulas ou vibratos insuportáveis –  como tanto gostam as cantoras da mídia. É como se fôssemos incluídos, somos também calor e arrepio, um flerte…

E aí a canção acontece.


outubro 14, 2011


Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.

Carlos Drummond de Andrade



outubro 9, 2011

Olha-me pra estas crianças de vidro
cheias de água até às lágrimas
enchendo a cidade de estilhaços
procurando a vida
nos caixotes de lixo.

Olha-me estas crianças
transporte
animais de cargas sobre os dias
percorrendo a cidade até os bordos
carregam a morte sobre os ombros
despejam-se sobre o espaço
enchendo a cidade de estilhaços.

*

Chegas
eu digo sede as mãos
fico
bebendo do ar que respiras
a brevidade

assim as águas
a espera
o cansaço.

O risco na pele  
acende a noite  
enquanto a lua 
(por ironia 
ilumina o esgoto  
anuncia o canto dos gatos)  
De quantos partos se vive  
para quantos partos se morre 

um rito espera-se faca 
na garganta da noite.

November Without Water e Trecho de Mukai, de Ana Paula Tavares. Poeta angolana, nascida em Huíla, em 1952.


outubro 8, 2011

Na primeira vez que li, há anos, fiquei chapada, o efeito durou dias… Reli na quarta, chorei debaixo da chuva fininha e fria… É mesmo tocante o conto e vale ser compartilhado.

MARIA

Conceição Evaristo

Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara em uma hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?

A palma de uma de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!

Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjôos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai de seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de uma outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? Cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros… outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também. Ficava, apenas de vez em quando, com um ou outro homem. Era tão difícil ficar sozinha! E dessas deitadas repentinas, loucas, surgiram os dois filhos menores. E veja só, homens também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito…

O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem, entretanto virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do burraco-saudade no peito dele… Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ai aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? Era a primeira vez que ela via um assalto no ônibus. Imaginava o terror das pessoas. O comparsa de seu ex-homem passou por ela e não pediu nada. Se fossem outros os assaltantes? Ela teria para dar uma sacola de frutas, um osso de pernil e uma gorjeta de 35 reais. Não tinha relógio algum no braço. Nas mãos nenhum anel ou aliança. Aliás, nas mãos tinha sim! Tinha um profundo corte feito com faca-laser que parecia cortar até a vida.

Os assaltantes desceram rápido. Maria olhou saudosa e desesperada para o primeiro. Foi quando uma voz acordou a coragem dos demais. Alguém gritou que aquela puta safada lá da frente conhecia os assaltantes. Maria assustou-se. Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz vinda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei porquê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembravam vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção à Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!… Uns passageiros desceram e outros voaram em direção à Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: Calma pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos… Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos gostam de melão?

Tudo foi tão rápido, tão breve. Maria tinha saudades do seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas-laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher já estava todo dilacerado, todo pisoteado.

Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho.

Publicado em Cadernos Negros Vol.14, org. Quilombhoje-Literatura, São Paulo, Edição dos Autores, 1991.