16 anos antes de Rosa Parks se recusar a ceder seu lugar a um branco num ônibus em Montgomery (Alabama), Billie Holiday cantou, precisamente em 1939, Strange Fruit. O movimento pelos direitos civis ainda era incipiente. O compositor Abel Meeropol declarou: “Escrevi a canção porque detesto linchamentos, detesto injustiça e detesto as pessoas que a perpetuam”.

Alguns dados: “entre 1889 e 1940, 3.833 pessoas foram linchadas; 90% delas foram assassinadas no Sul, e quatro quintos eram negros. Linchamentos tendiam a ocorrer em cidades pequenas e pobres, muitas vezes tomando o lugar, como disse uma vez o famoso jornalista H. L. Mencken, ‘do carrossel, do teatro, da orquestra sinfônica’. Podiam envolver comunidades inteiras ou só uma quadrilha de justiceiros, quase sempre disfarçados.” (MARGOLICK, 2012, p. 37)

Da repercussão, detalhadamente pesquisada e deslindada por David Margolick, chama a minha atenção também o machismo de vários críticos, que insistem em desqualificar a inteligência da senhora Holiday. Alguns alegam que a canção foi bem interpretada por mero instinto, visto que ela não seria capaz de compreender a complexidade do tema. Tolos! (Aliás, tolos em várias gerações, e, aos montes!)

Opinião não compartilhada, ainda bem, por estudiosos, instrumentistas, cantores e produtores. Ned Rorem, por exemplo, ouviu a canção quando tinha quinze anos: “Meu mundo mudou para sempre (…). Os versos vívidos sobre um linchamento, grotescos e desesperados, sem ritmo e perigosamente lentos, declamados num gemido veludoso e vulnerável, eram diferentes de tudo o que tinha ouvido antes.” O jornalista Harry Levin relata: “O rosto dela mudou completamente. Seu corpo pareceu saltar para longe do piano. Os olhos estavam bem apertados. Ficamos praticamente paralisados; ela nos empurrava para o contato físico com cada palavra e gesto de Strange Fruit. Ficamos atônitos, quietos, sem ousar olhar uns para os outros. Em meio à Segunda Guerra Mundial, estávamos lutando para restaurar a liberdade. Estaria Billie nos lembrando de que havia assuntos inacabados que os Estados Unidos não deviam ignorar? Em minha longa vida, essa continua sendo a minha memória musical mais valiosa.” Jack Schiffman, administrador do Apollo Theater,  descreve: “(…) a canção assumia um profundo simbolismo. Não só você enxergava, em todo seu horror gráfico, aquele ‘fruto’, como via em Billie Holiday a esposa, a irmã ou a mãe da vítima, debaixo da árvore, quase prostrada de tristeza e fúria (…) E quando ela arrancava as últimas palavras de sua boca, não havia uma única alma na plateia, negra ou branca, que não se sentisse meio estrangulada. Seguia-se um momento de silêncio pesado, opressivo, e então uma espécie de som sussurrante que eu nunca tinha ouvido antes. Era o som de quase 2 mil pessoas suspirando.”

Gunther Schuller observa que o pianista White escolhe o si bemol, tonalidade que Chopin usou para suas peças mais sombrias. “Depois vinha o som absolutamente inconfundível da própria Holiday. Ela é sombria e determinada, mas conserva ainda uma adorável leveza. Não é melodramática; nada chorosa, nada histriônica. Sua elocução é soberba, com um vago sotaque sulista; o tom é langoroso porém firme, cru mas macio, jovem mas maduro. O sentimento predominante não é a dor ou a derrota, mas o desprezo e a segurança, perceptíveis quando ela cospe as referências à galanteria sulista e às magnólias de perfume adocicado.” (MARGOLICK, 2012, p. 62). Benny Grenn encerra: “(…) quando Billie Holiday canta o verso ‘Cena pastoril do Sul celebrado’, a civilização dá sua última palavra sobre a realpolitik da discriminação racial, em todas as formas e graus. (…) a intensidade aumenta quando ela atinge a palavra ‘crop’, que oscila para frente e para trás numa nota estranhamente não resolvida, como um homem morto pendurado no galho” (MARGOLICK, 2012, p. 63)

A biografia da canção revela o poder transformador da arte. Entre os vários depoimentos selecionados por Margolick, escolho dois. A atriz Billie Allen Henderson lembra: “Eu estava de pé tentando ser sofisticada e de repente senti uma pontada no plexo e mal pude respirar. Foi um sentimento tão profundo. Eu entendi. Eu entendi. Dava para sentir o cheiro de carne queimada. Ela era… impiedosa. Essa é uma boa palavra. Algumas pessoas não sabiam como reagir. Não tinham bem certeza. Ninguém se mexia. Foi surpreendente, e eu nunca vou esquecer. Pensei: é isso o que a arte pode fazer.” (MARGOLICK, 2012, p. 101). A cantora Abbey Lincoln, que homenageou Holiday no álbum Abbey Sings Billie, afirma: “Ela pintou um quadro brilhante de uma cena de terror. Por isso, gosto tanto de Billie, porque ela era muito honesta. Ela não estava exibindo a voz. Ela nos contou o que estava acontecendo e ajudou a acabar com os linchamentos do Sul.” (MARGOLICK, 2012, p. 121).

A brutalidade da desigualdade racial estadunidense espelhada no Brasil de 2014. Didi (que me faz dormir tarde, esperando o programa Metrópolis, TVE) sabiamente nos mostra a importância dessa analogia… Como é crucial lermos o horror de outros tempos, outras culturas, para entendermos esse momento paradoxal do Brasil, que luta por cidadania e igualdade, mas que arranca a orelha de garotos negros, amarrados em um poste… 

Árvores do sul produzem uma fruta estranha

Folha ou raiz em sangue se banha;

Corpo negro balançando, lento:

Fruta pendendo de um galho ao vento.

 

Cena pastoril do Sul celebrado;

A boca torta e o olho inchado

Cheiro de magnólia chega e passa

De repente o odor da carne em brasa

 

Eis uma fruta para que o vento sugue,

Pra que um corvo puxe, pra que a chuva enrugue

Pra que o sol resseque, pra que o chão degluta.

Eis uma estranha a amarga fruta.

(Versão de Carlos Rennó)

Publicação iniciada no Facebook:

2014. Linchamentos. Racismo raivoso que não descansa, mais de 500 anos. Violência e fundamentalismo irresponsável assinados em muitos programas de TV, sites e páginas do Facebook. Alguma denúncia. Reflexão rasteira, preguiçosa, espreguiçando-se no bordão comum, rapidamente compartilhado…
Escolho um trecho da crônica ‘Mineirinho’, de Clarice Lispector, de 1963, contra o justiçamento, para os alunos endossarem e atualizarem… A repetição do horror… Um aluno estufa o peito e pede para refutar, pensa como Sherazade, fã de Datena…e tem lá seus 5 fiéis amigos dispostos a ferir a aula, a ética e a sensatez… (ele quer ser médico)… Mais de 23 horas de uma quarta-feira, uma tristeza – daquelas que tenta apagar o nosso brilho e esperança – bate fundo. Quando a favela se encontra com o espaço gourmet, no alto da Avenida Nossa Senhora do Carmo, o choro me toma, irmana-se ao contraste da cidade. Pelo retrovisor, compaixão nos olhos do taxista. Já era tarde. Tristeza fecunda.
Em casa, segui a preciosa dica de Adriana Couto, reli “Strange Fruit”, de David Margolick. (Edição da Cosac Naify, de 2012.Tradução de José Rubens Siqueira)

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