novembro 10, 2013

Nostalgia para Beatriz:

Nunca acaba, a cena se reinventa...barco embriagado ao mar

Amo o poema e como o poema

                     vira música na voz de Adriana,

                                             nítido-marejante…

Amo o contrabaixo, amo o teclado…

Assisti a esse show duas vezes

              e assistiria a muitas outras

                             pudéssemos voltar no tempo…

numa delas, 4 extasiados numa mesa, eu, Lízia, Mangaba e Raquel...

acho que todos nós queríamos nos casar com Adriana ali no a-to

(você tem meia hora pra mudar a minha vida)

acho que todos nós saímos bêbados bobos embasbacados

hoje é a mesma canção

em nova (e bem vinda) companhia


novembro 6, 2013

Curiosa, adentrei uma loja de cd e um senhor – vendedor ou dono, não sei – sorriu para mim, cúmplice, como se me (re)conhecesse, e colocou um cd de Clara Nunes. Sorri e nem quis mais sair dali, cantarolando que estava para os Orixás.

Essas cenas singelas e inesperadas acontecem e passam a habitar a nossa memória, risonhas, lépidas… Até porque eu estava em Sampa, na Augusta, curtindo o vaguear das horas de ócio. Não era o cenário do Rio de Janeiro, mas o de uma verticalização radical, o de uma rua viva, ágil, marcada pela beleza das mulheres que transitavam. Muitas mulheres, lindas, altivas, ousadas… Muitos casais gays de mãos dadas, um contraponto colorido à violência desmedida da homofobia na Paulista. Tatuagens, piercings e alargadores de vários tipos e tamanhos.

Soa contraditório curtir o ócio em São Paulo, mais ainda ouvir samba de terreiro em uma loja comum, mediana e sem o charme dos sebos. Sei que lá acabei comprando um cd da Joyce, o que me devolveu àquelas canções que eu amava e tinha perdido, àqueles arranjos bem desenhados e àquele violão tão singular. Ela, que foi desacreditada pela crítica machista no início de carreira: Como pode tocar violão assim feito homem? Como pode compor assim? Essa música é sua mesmo? Ela, que detesta os exageros dos vibratos e sabe, como poucas, fechar o fraseado melódico. Ela, que é tão única, voltou aqui para o meu som, para minha (c)asa, graças às horas de descanso na Augusta. Nesse pequeno quarteirão – trajeto de sereias solitárias; de almofadinhas; como também do travesti afrancesado, cantando suas nostalgias com as brancas e longas pernas de fora; da negra de seios fartos, riso contido e seus dendês; e de uma moçada lúdica, heterogênea e bonita – reencontrei Minha gata Rita Lee

Quando você chegou lá em casa, foi coisa tão inesperada
Ali na porta abandonada a me pedir casa e comida
Magrinha, magrinha, arrepiada, com pelos vermelhos, olhos de fome
Eu não podia mesmo te dar outro nome, Rita Lee
Ah, Rita Lee, por onde é que anda Rita Lee?
Sem pai nem mãe, sem pedigree, imprevisível Rita Lee
Ah, Rita Lee, por onde é que anda Rita Lee?
Sem pai nem mãe, sem pedigree, irresistível Rita Lee

Então você foi adotada por todos nós alegremente
Oscar morava já com a gente e era igualmente um vira-lata
E apesar de serem cão e gata jamais houve dois mais companheiros
Jamais dois amigos assim verdadeiros, nunca vi
Passava o tempo descuidada, sempre inventando brincadeiras
Saltos mortais de mil maneiras, deixando a gente distraída
E assim ninguém viu sua saída, talvez só o Oscar tenha notado
E a noite engoliu as tuas sete vidas, Rita Lee

 


novembro 5, 2013

Dias Assim:

BAsquiat


setembro 26, 2013

Entre expressionista e cabralina,  Micheliny Verunschk

faz uma poesia que respira.

Aridez e seus exílios;  fluidez que nos arranha.

A presença dolorosa do deserto

Teu nome
é meu deserto
e posso senti-lo
incrustado
no meu próprio
território
como uma pérola
ou um gesto no vazio
como o amargo azul
e tudo quanto
há de ilusório.

Teu nome
é meu deserto
e ele é tão vasto,
seus dentes tão agudos,
seus sóis raivosos
e suas letras
(setas de ouro e prata
dos meus lábios)
são meu terço
de mistérios dolorosos

O trabalho do amor
é essa carne
essa úlcera
ardendo
no centro da palavra
esse passado
de dentes afiados
essa rede de nervos
fluxo de sangue
ininterrupto
essa saudade
que se chama
fome
pânico
um cigarro
acendendo
a madrugada.

(…)

O Búzio de Cós

O búzio

sobre o móvel

celebra

o único mar

possível:

o mar cristalino e lúcido

a se quebrar

nas páginas

desse livro.

– 

Micheliny Verunschk é autora de Geografia Íntima do Deserto (Landy, 2003), amo esse título, de O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003) e de  A Cartografia da Noite (Lumme, 2010). É mestre em Teoria e Crítica Literária e atua na área de Jornalismo Cultural.


agosto 5, 2013

Projetar show gratuito nas praças é importantíssimo, todos sabemos.

Só não entendo por que a qualidade do som vira um detalhe insignificante, quando deveria ser atentamente cuidada. Afinal, só assim chega ao povo a voz do artista.

Ontem, ouvir o agogô foi missão impossível.

Nenhum técnico conseguiu equalizar o microfone de Paulinho da Viola.

Ainda assim, ouvir, em meio ao eclético público, Solidão é lava que cobre tudo/Amargura em minha boca/Sorri seus dentes de chumbo… me arrepiou até a nuca.

Tia Surica e toda a velha guarda da Portela: samba com perfume de alecrim…

Fotografia de Dora Araújo

Meu amor mais do que confesso, registrado no nome do meu filho Caê, e nos inúmeros posts dedicados ao poeta, é Caetano Veloso.

Estava mais interessada em ouvir o repertório de Abraçaço do que os clássicos, sem dúvida…

Mas, curiosamente, aquele momento voz e violão, com as canções de sucesso, não foi tedioso.

Foi vibrante sentir o público cantando (algumas pessoas de olhos fechados, outras, vidradas no palco) os emblemáticos versos. Alguns já tão populares que soaram como se fossem provérbios, como se fossem nossos…

(E não são?)

 

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas

Da força da grana que ergue e destrói coisas belas

Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas

 

É que Narciso acha feio o que não é espelho

 

Lua de São Jorge, cheia, branca e inteira

Oh, minha bandeira solta na amplidão

 

Para desentristecer, leãozinho

O meu coração tão só

Basta eu encontrar você no caminho

Diga, espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu!

 –

Essa força do cancionista de nos representar simbolicamente é o grande barato. E tudo soa como se fosse tão simples!… Como se não houvesse a transpiração cabralina aliada à intuição santoamarense…

Dois irmãos 

Delírio coletivo nos versos:

Tudo, tudo na Bahia/Faz a gente querer bem/

A Bahia tem um jeito.

Caetano Veloso era a Bahia ali.

A banda Cê, ora londrina, ora angolana, também tem um jeito!

A guitarra de Pedro Sá é crua e percussiva, marcou o samba de roda no dedilhado e nos fez pisar no chão devagarinho…

Caê colocou a poesia concreta dos irmãos Campos na boca de cada um, melodiosa, um curso a se desenhar na multidão, entre luzes azuis que cruzavam os feiosos edifícios atrás da histórica estação. E fez a praça inteira gritar o nome de Tieta, nos devolvendo nua-inteira a personagem de Jorge Amado.

Mais de 70 anos, sua voz límpida, luminosa, com sua força estranha, nos mostrou o que já sabíamos: ele é o dono da festa, é a sereia que dança, a destemida Iara, água e folha da Amazônia


julho 28, 2013

As vozes resistem, ecoam sob o sol…

A natureza lunar assusta? Onde mora o espanto?

Quem vai insistir nessa hegemonia surda,

pautada no macho-adulto-branco?

Indiazinha Wewei Asurini, foto de Karina Menezes.

Pintura feita pela avó.

O nevoeiro da vida, foto de Josefina Melo.

Eu mesma deixei de entender a minha substância:

tenho apenas o sentimento dos mistérios que em mim se equilibram.

As palavras que escutava

eram pássaros no escuro

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:

não tenho inveja às cigarras:

também vou morrer de cantar.

MEIRELES, Cecília. Viagem & Vaga Música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 61; p. 16; p. 25.

Olhar, foto de Eva Pinto.

(…)

o sonho balbuciava em nós

seu canto efêmero

o vento e o outono numa solidão

eu te dizia

deixe teus pés nus sobre a terra molhada

uma rua branca

e uma árvore

serão minha memória

dá os teus olhos ao horizonte que canta

minha mão

suspende a cabeleira do mar

e roça tua nuca

mas tu tremes no espelho do meu corpo

nuvem

minha voz

te leva rumo ao jardim de árvores prateadas

 

era uma primavera aberta sobre o céu

ele me deu uma criança

uma criança que chora

uma estrela dividida

e meu desejo se separa do dia

eu o recolho numa folha de papel

e vou esconder a loucura

num rochedo de solidão.

JELLOUN, Tahar Ben.  As cicatrizes do Atlas. Brasília: Editora UNB, 2003. P. 23-25


julho 28, 2013

Acordei com muitas vozes de mulheres retumbando dentro de mim.  

Nações inteiras. Lugares, águas. Jasmim.

E seu hálito de chuva.

Para onde? Fotografia de Eva Pinto.

Mulher Macua, fotografia de Isabel Osório.

Tenho uma voz (…) este é um exercício de vida sem planejamento.

O mundo não tem ordem visível e eu só tenho a ordem da respiração.

Deixo-me acontecer.

LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Editora Rocco, p. 22

Nem as estrelas chegam a esses lugares instáveis,

de onda e nuvem, por onde as palavras e os fantasmas

misturam seus olhos, caminhando por dentro de si!

 

Sua sombra, seu rastro,

mesmo sem querer,

por aí ficam também, perdidos.

Expostos.

 

MEIRELES, Cecília. Viagem & Vaga Música. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 140.

Olhar, fotografia de Moura.

Sonho, fotografia de Moura.

Evola-se de minha pintura e destas minhas palavras acotoveladas um silêncio que também é como o substrato dos olhos.

Estou transfigurando a realidade

– o que é que está me escapando?

Por que não estendo a mão e pego?

É porque apenas sonhei com o mundo mas jamais o vi.

LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Editora Rocco, p. 66; p. 60.

 Kamila Kuikuro, foto de Rita Barreto.