Reli ontem alguns textos de Eduardo Galeano, os dois que publico agora me machucaram (de novo!). São textos que não têm fim, continuam em nós, nos devolvem ao espelho humano.

“Os espelhos estão cheios de gente.

Os invisíveis nos veem.

Os esquecidos se lembram de nós.

Quando nos vemos, os vemos.

Quando nos vamos, se vão?”

O autor se irritou certa vez quando um jornalista falou sobre ser irônico. Não há ironia, reclamou. Galeano disseca o fato, nos devolve a história, muitas vezes mal contada e deturpada. Lacera o cinismo, tão comum na mídia, na escola, na sala de jantar…

Ecos

Foi-se embora, mas ficou. Frei Tito estava livre, exilado na França, mas continuava preso no Brasil. Os amigos diziam a ele o que os mapas diziam, que o país de seus verdugos estava longe, do outro lado do oceano, mas aquilo não adiantava nada: ele era o país onde seus verdugos viviam.

Estava condenado à repetição cotidiana de seu inferno. Tudo que tinha acontecido com ele tornava a acontecer. Durante mais de três anos, seus torturadores não deram trégua. Fosse aonde fosse, nos conventos de Paris e de Lyon ou nos campos do sul da França, davam chutes em seu ventre e golpes de cabo de fuzil na sua cabeça, apagavam cigarros em seu corpo nu e metiam a máquina de choques elétricos nos seus ouvidos e na sua boca.

E não se calavam nunca. Frei Tito havia perdido o silêncio. Em vão buscava algum lugar, algum canto do templo ou da terra, onde não soassem aqueles gritos atrozes que não o deixavam dormir, nem o deixavam rezar suas orações que antes foram seu ímã de Deus.

E não aguentou mais. É melhor morrer do que perder a vida, foi a última coisa que escreveu.

GALEANO, Eduardo. Bocas do tempo. Trad. Eric Nepomuceno. Porto Alegre: LP&M, 2004, p. 311.

As idades de Ana

Em seus primeiros anos, Ana Fellini acreditava que seus pais tinham morrido num acidente. Seus avós contaram. Disseram a ela que seus pais vinham buscá-la quando o avião caiu.

Aos onze anos, alguém disse a ela que seus pais tinham morrido lutando contra a ditadura militar argentina. Não perguntou nada, não disse nada. Ela, menina falante, desde aquele momento falou pouco ou nada.

Aos dezessete anos, era difícil beijar. Tinha uma chaguinha debaixo da língua.

Aos dezoito, era difícil comer. A chaga era cada vez mais funda.

Aos dezenove, foi operada.

Aos vinte, morreu.

O médico disse que foi morta por um câncer na boca.

Os avós disseram que foi morta pela verdade.

A bruxa do bairro disse que morreu porque não gritou.

GALEANO, Eduardo. Espelhos. Uma história quase universal. Trad. Eric Nepomuceno. Porto Alegre: LP&M, 2008, p. 317.

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