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As manifestações recentes demonstram claramente que há um sentimento generalizado de cansaço e indignação à violação cotidiana dos nossos direitos civis

Manifestação em Brasília, 17 de junho de 2013.

Na abertura da Copa das Confederações, 8 mil manifestantes nas ruas de Belo Horizonte, reivindicando respeito, passe livre, melhor qualidade nos transportes públicos. O movimento, contrário aos gastos abusivos para a Copa do Mundo, questiona também a PEC 37 (projeto conhecido como PEC da Impunidade, que visa a tirar o poder de investigação criminal dos Ministérios Públicos Estaduais e Federal, uma forma de inviabilizar investigações contra o crime organizado, desvio de verbas, corrupção, abusos cometidos por agentes do Estado e violações de direitos humanos). Os estudantes se encontraram no meio do caminho com a Marcha das Vadias e com o movimento LGBT – uma cena linda e flagrante de que o aumento das passagens é apenas o estopim das passeatas. Vamos nos lembrar das inúmeras e recentes manifestações contra o deputado Marcos Feliciano, presidente da Comissão dos Direitos Humanos; do apoio aos indígenas Guarani-Kaiowá; do manifesto contra a demolição do Estádio de Atletismo Célio de Barros, do Parque Aquático Júlio Delamare, da Escola Municipal Friedenreich e contra a privatização do Maracanã.

O sentimento de cidadania estava nas ruas, com sua multiplicidade.

(Ontem o movimento contou com 30 mil nas ruas, o percurso até a UFMG foi tranquilo. Lá a polícia começou sua cena de violência e abuso de poder, tão rotineira contra os negros e pobres da capital. Muitos colegas se machucaram, alguns ficaram encurralados entre as grades da faculdade e a pm. Momentos de terror e susto!)

Em Brasília, Dilma Roussef vaiada. Achou que seria aplaudida de pé? Achou que aquelas pessoas que pagaram ingressos caríssimos não sabem do superfaturamento dos estádios? Da putaria das licitações para a administração de cada um?

A postura linguística da presidenta de ressaltar o feminino A, apesar de interessante, não é suficiente. Seu governo negligencia a pauta das mulheres – foi também merecidamente vaiada pelas feministas na Rio+20 (e ficou nervosinha)! Sua omissão diante dos protestos contra Marcos Feliciano, a fim de garantir a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara aos condenados José Genuíno (por corrupção ativa e formação de quadrilha) e João Paulo Cunha (por peculato, lavagem de dinheiro e corrupção passiva); sua escolha de se aliar a ruralistas e evangélicos fundamentalistas que tocam o terror e fingir que nada está acontecendo, além de desconsiderar a pauta do movimento LGBT; sua (im)postura diante dos conflitos agrários e dos indígenas e o vexame de insistir em usinas hidrelétricas como única medida possível para a energia do país revelam alguns dos erros de seu governo.

(…) O Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão

(Renato Russo)

[Eu sei que, mesmo com todos os problemas, os governos Lula e Dilma são bem melhores do que os 8 anos obscuros de FHC, mas me dou o direito de criticar as merdas atuais. Cansa esse reducionismo PT X PSDB na mídia. Criticar o governo NÃO significa compactuar com as falácias dessa oposição suja e de centro-direita.]

É triste vivenciar como grande parte do PT optou por queimar suas bandeiras. Eu estava nas ruas com o PT, PCdoB, PCB e com a UJS no Fora Collor. Eu presenciei a força do movimento estudantil, apesar de alguns livros de história insistirem em negar a força política da UNE e UBES na época – os mesmos livros que mencionam Zumbi em um parágrafo e negam figuras como Rosa Maria e Chica da Silva. Eu estava grávida do Caê, os amigos cuidavam para que eu não pulasse muito em cada voto a favor do impeachment. No sábado e na segunda, o Caê estava nas ruas. 

Manifestação em Belo Horizonte, 15 de junho de 2013.

Na passeata, houve vaia aos militantes do PSOL e PSTU (confesso que sou contrária a essa vaia porque acho que os militantes devem ser bem vindos às manifestações, mas a compreendo. Essa moçada NÃO se identifica com os partidos, NÃO se sente representada). Os estudantes prezaram por mostrar que foi um gesto livre de partidos, uma passeata independente, organizada via facebook. O verso Meu partido é um coração partido, do Cazuza, estampou vários cartazes. Simbólico, não? É uma moçada em busca de uma ideologia para viver, sem uma referência exata de esquerda, centro e direita. O que é a oposição no Brasil? DEM? PSDB? PSB? Filhotes de ditadura militar; políticos sujos trajados de bons moços… e muito blá blá blá. Eles também merecidamente foram alvo dos manifestantes.

Manifestação em Belo Horizonte, 15 de junho de 2013.

(Vale ressaltar que o movimento Fora Lacerda já é antigo).

A diversidade de partidos com os mesmos problemas de gestão é flagrante nas capitais. Retrata, portanto, o descrédito dos estudantes e de boa parte da população.

Como são irritantes e mentirosas as propagandas do governo de Minas Gerais!!!

Como é intragável a dupla Fernando Haddad e Geraldo Alckmin!!!

Como é nojento o cinismo de Sérgio Cabral e Eduardo Paes!!!

Manifestação de 100 mil  pessoas no Rio de Janeiro, 17 de junho de 2013.

A grande mídia tratou os manifestantes como vândalos e repetiu aquelas reportagens ridículas que enfatizam o engarrafamento, que entrevistam o cidadão dentro do carro e não o manifestante e que sequer mencionam quais eram os motivos do protesto. Informação zero, texto semi-pronto.

É estranho porque os jornais estão falindo e os editores ainda não perceberam que os blogs e portais alternativos são mais lidos, mais informativos e mais consistentes. Não notaram ainda que cada cidadão hoje é um cronista em potencial, que os celulares clicam, filmam e reproduzem um material que circula quase em tempo real na rede. Enquanto os jornais da Globo desinformavam (e o Jabor babava asneiras), na internet, os vídeos, fotografias e textos mostravam a realidade das manifestações e a truculência da polícia – que detesta ser filmada e age como se estivéssemos ainda na ditadura militar. Polícia para quem?

Lindo depoimento!

Depois que a Giuliana Vallone, da Folha de São Paulo, foi atingida, parte da mídia burguesa mudou o discurso e resolveu noticiar os fatos. Neste vídeo da TV Folha, até o Luiz Felipe Pondé – tão elitista sempre, heteronormativo ao cubo – defendeu os ativistas.

Muito se falou na mídia paulista sobre 20 centavos. Ora, não são 20, mas 40, afinal o trabalhador vai e volta! R$6,40 por dia é um abuso! Faça as contas! O transporte público é acintoso: ônibus lotados (ê vida de gado!); pneus carecas; cadeiras danificadas; motoristas e cobradores mal remunerados, mal assistidos e mal treinados… O índice de assaltos nos pontos de ônibus e dentro das conduções é altíssimo também. O trabalhador (em todo o país) é vítima e refém de uma situação caótica e diária.

Manifestação em São Paulo, 17 de junho de 2013.

Vale ler os textos de Eliane Brum sobre a causa indígena e sobre as manifestações, basta clicar aqui e aqui.

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