Mãe de Santo

Assombra o fato de o fundamentalismo religioso se apossar de instituições democráticas e fazer da Câmara dos Deputados trampolim para a intolerância e para o desrespeito aos direitos humanos. O discurso inflamado de pastores em nome de uma “moral familiar” é semelhante ao da Tradição Família e Propriedade: ditatorial, opressor e cínico.

Eles vendem o céu à prestação, aceitam cheques pré-datados em seus cultos, cobram a senha – pessoal e intransferível – do cartão doado por um fiel.  Barganham o “milagre”.

Sabem também cometer atos ilícitos, esvaziar a câmara no dia da votação contra o trabalho escravo infantil (curioso, não?), empregar funcionários fantasmas, corromper, mentir, gritar e chutar a imagem de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira negra do Brasil. Improbidade administrativa, corrupção eleitoral, abuso de poder econômico, sonegação fiscal e formação de quadrilha é com essa turma mesmo.

Charge do genial Carlos Latuff.

Quer alguns dados?

Conforme o Transparência Brasil, a esmagadora maioria de deputados que compõem a bancada evangélica responde a processos judiciais; 95% da referida bancada estão entre os mais faltosos; 87% da referida bancada estão entre os mais inexpressivos do DIAP. Eles são ficha suja!


Assusta o afeto tornar-se mote de agressões físicas, injúrias e assassinatos. Uma desculpa para ser violento? Um desculpa para ferir a integridade humana? O que, de fato, repele muitos dos evangélicos?

[Belo Horizonte, Augusto de Lima, quase com a Rua da Bahia, no meio da tarde. Céu chumbo, pessoas amontoadas debaixo da ridícula proteção do ponto de ônibus. Dois homens abraçados, um passou as mãos suavemente nas costas do outro, um belo garoto, com (talvez) quinze anos. O suficiente para um emburrado rapaz, que segurava com firmeza uma bíblia na mão, começar a vociferar frases ofensivas contra os dois. Eles foram se aproximando, fiquei apreensiva porque o rapaz aumentou o tom da voz. Seus olhos eram raivosos. O incômodo se instaurou em segundos. As pessoas se entreolhavam. Filho, quer que segure sua mochila?

A cena, corriqueira, revela o quanto os fanáticos evangélicos se incomodam com o afeto entre pessoas do mesmo sexo. Revela o quanto esse incômodo beira o ridículo. Se ele partisse para a agressão física, não seria o primeiro homem agredido por um insano homofóbico enganado pelo carinho de um pai a um filho.]

Manifestação-Beijaço, em Brasília.

Os jornalistas e os artistas sempre tomam o cuidado de afirmar que o problema não é a religião, mas o mau uso dela. Em mim causa terror não apenas o fato de Marco Feliciano presidir a CDH, mas de ter sido votado por seus fiéis seguidores. É claro que não são todos assim. É digno ver Marina Silva se pronunciar contrária a esses pastores – ela é, sem dúvida, bem mais atuante, íntegra e corajosa do que a presidenta Dilma Rousseff, que, na sua torpe aliança com o PMDB, é constantemente chantageada pela bancada evangélica. E cede, muitas e muitas vezes. É lindo assistir ao relato da blogueira evangélica Juh Sarah – sua clareza e coragem. Entretanto, é inegável que muitos fiéis seguem essa cartilha de horrores apregoada por Feliciano, Malafaia, entre outros. É fato que muitos incendeiam (impunes) terreiros de umbanda e candomblé Brasil afora, insultam pessoas nas ruas, ameaçam de morte qualquer um que se declare publicamente contrário aos seus dogmas. A série de ameaças de morte a Jean Wyllys, por exemplo, é majoritariamente de evangélicos. As injúrias em nome de Deus são constantes, tenebrosas, e, claro, completamente contraditórias à história de amor e simplicidade de Jesus Cristo.

dsc_8582_camila_amado_e_fernanda_montenegro_-_7o_premio_aptr_2013_-_marco_-_foto_cristina (1)Fernanda Montenegro e Camila Amado se beijam em protesto contra Marco Feliciano. Como é lindo e simbólico o ato dessas atrizes!

Esses pastores não nos representam, são perigosos e ardilosos, demonizam a cultura brasileira, as religiões de matriz africana e as tradições indígenas. Sentem-se no direito de construir igrejas dentro dos territórios indígenas e amaldiçoar os instrumentos e totens de fé da tribo, como têm feito sistematicamente contra os povos guaranis. Sentem-se no direto de aliar-se à bancada ruralista, comprovadamente assassina! Que Deus é esse que defendem? O que se irmana a fazendeiros que abusam de mulheres e crianças, que invadem terrenos quilombolas, que ameaçam os povos guarani-kaiowá, que aniquilam os seringueiros ambientalistas?

Que evangelho pregam? O do desamor? Da desarmonia? 

guaranis-kaiowásCrianças Kaiapós.

#ForaFeliciano!

Chega do seu Deus-Dízimo! do seu Deus-Opressor! 

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 Contundente protesto de Elza Soares contra Feliciano, aqui

Já escrevi sobre a hipocrisia da igreja católica e os desvarios consumistas na semana santa, quem quiser ler, basta clicar aqui

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