20 de novembro, Dia da Consciência Negra.

À benção Zumbi dos Palmares! Ogunhê! Patakori Ogun!

À benção Anastácia, Xica, Zezé! Ora iê iê ô !

Quando chegaste, mais velhos contavam histórias. Tudo estava no seu lugar. A água. O som. Na nossa harmonia. O texto oral. E só era texto não apenas pela fala, Mas porque havia árvores (…). E era texto porque havia gesto. Texto porque havia dança. Texto porque havia ritual. Texto falado, ouvido e visto. É certo que podias ter pedido para ouvir e ver as estórias que os mais velhos contavam quando chegastes! Mas não! Preferiste disparar os canhões. A partir daí, comecei a pensar que tu não eras tu, mas outro, por me parecer difícil aceitar que da tua identidade fazia parte esse projeto de chegar e bombardear o meu texto. Mais tarde viria a constatar que detinhas mais outra arma poderosa além do canhão: a escrita. E que também sistematicamente no texto que fazias escrito intentavas destruir o meu texto ouvido e visto. Eu sou eu e a minha identidade nunca a havia pensado integrando a destruição do que não me pertence.

Mas agora sinto vontade de me apoderar do teu canhão, desmontá-lo peça a peça, refazê-lo e disparar não contra o teu texto, não na intenção de o liquidar, mas para exterminar dele a parte que me agride. Afinal, assim identificando-me sempre eu até posso ajudar-te à busca de uma identidade, em que sejas tu quando eu te olho, em vez de seres o outro.

(…) Para fazer isto eu tenho que transformar e transformo-me (…). Não posso matar o meu texto com a arma do outro. Vou é minar a arma do outro com todos os elementos possíveis do meu texto.

(…) Invento outro texto. Interfiro, desescrevo, para que conquiste a partir do instrumento escrita um texto escrito meu, da minha identidade. Os personagens do meu texto têm de se movimentar como no outro texto inicial. Têm de cantar. Dançar. Em suma, temos de ser nós. “Nós mesmos”. Assim reforço a identidade com a literatura.

Do angolano Manuel Rui,

Eu e o outro – o invasor ou  uma maneira de pensar o texto.

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