O Brasil foi o último país das Américas e o penúltimo do mundo a libertar seus escravos. Lá, houve escravidão legal até o final do século XIX. Depois também houve, mas ilegal, e continua havendo. Em 1888, o governo brasileiro mandou queimar toda a documentação existente sobre o assunto. Assim, o trabalho escravo foi oficialmente apagado da história pátria. Morreu sem ter existido, e existe apesar de ter morrido.

(GALEANO, 2008, p.177)

Senzala

– 

senzala

é a minha carne retalhada

pelo dia-a-dia.

– 

senzala

é a sombra que tenho aprisionada

nos ghetos da minha pele.

Dono de sua voz, o sujeito poético nos incita aos porões do século 20.

A carne da metáfora revela as reminiscências de um passado que insiste em durar, visto que a condição do corpo ainda é a do gueto. A violência do verso é especular, na medida em que reflete exatamente a violência vivenciada pelo corpo negro – metonímia de uma coletividade. A senzala, espaço de segregação por excelência,   vive no sujeito, sombra de um tempo-espaço que insiste em durar, seja pelo estigma, seja pelo rastro de sua própria história. O corpo-poema, lacerado pelo cotidiano, arranca-nos da previsibilidade do discurso da democracia racial e nos entrega à visualidade da dor presente.

 O mito da harmonia social, ao encobrir a violência cometida contra os afrodescendentes e a que permitiu o extermínio da maioria da população indígena, ainda hoje justifica ações dirigidas contra a população de deserdados que continua a pagar um preço alto por ser significada por estereótipos que se cravam no corpo da população pobre, predominantemente de cor.

(FONSECA, 2010, p.92)

A Afirmação de Maria Nazareth Soares Fonseca demonstra justamente como é pernicioso esse discurso de harmonia social, que perpassa várias instâncias – jurídicas, acadêmicas e midiáticas –  e ganha um status de normalidade, a ponto de não sermos capazes de questioná-lo. A poesia de Ventura, no entanto, corrói, sem firulas e com uma objetividade cortante, qualquer possibilidade de mantermos essa falácia, também questionada por Eduardo Assis:

Constatamos não viver no país da harmonia e da cordialidade, construídas sob o manto da pátria amada mãe gentil, percebemos, ao percorrer os caminhos de nossa historiografia literária, a existência de vazios e omissões que apontam para a recusa de muitas vozes, hoje esquecidas ou desqualificadas, quase todas oriundas das margens do tecido social. (ASSIS, 2010, p.73)

 

Um contraponto dessa omissão é o poema

 

EU,

PÁSSARO PRETO

eu,

pássaro preto,

cicatrizo

queimaduras de ferro em brasa,

fecho o corpo de escravo fugido

e

monto guarda

na porta dos quilombos.

Ao demarcar seu lugar de enunciação, o pássaro preto canta suas cicatrizes. Guerreiro, monta guarda nos quilombos, é um escravo que fugiu, ou seja, que não suportou os maus-tratos e a forma desumana de vida, o que mina outro mito bastante recorrente no senso comum, o da passividade. A carne queimada pelo ferro, reificada por um sistema de imposição impiedoso, faz-se poema, desenha-se no corpo da letra – saber tão negado aos escravos – e grita.


Sujeito da sua enunciação, contemporâneo de seu tempo, Ventura entrega-nos uma poesia sem enfeites, breve e rascante.

ASSIS, Eduardo. Org. Um tigre na floresta de signos. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2010.

GALEANO, Eduardo. Espelhos. Uma história quase universal. Trad. Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2008.

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