Quando soube que a Adriana Calcanhotto ia gravar um disco de samba, minha primeira reação foi de desânimo e desconfiança. Não porque não goste de samba, nem mesmo porque considere um movimento revisionista, como insiste em afirmar o Lobão, mas porque há tantas cantoras bacanas que gravaram tão mal o samba. Algumas ralentaram e ralentaram e ralentaram até chatear, outras encheram a síncope de vibratos insuportáveis. Eu acabei me flagrando com meus antigos cds de Bob Dylan e com os recentes do Beirut e Karen Elson. A mpb ficou uns meses na gaveta.

Depois, já na ansiosa espera pelo disco, ouvi algumas vezes a belíssima gravação de Mulato Calado, que está em Senhas, de 1992.

O micróbio do samba é um cd autoral e inteligente, revela a tolice da minha reação imediata.

Me ganha pelo mínimo, nada sobra…voz delicada, caixinha de fósforo…e uma malemolência (ai) de quem tem o que dizer; ah! pode se remoer! Afinal, ela sabe mesclar o violão bossanovista às palmas do samba de roda da Bahia, sabe entrelaçar as vozes intertextomusicais da tradição e subverter os clichês do malandro enganador, como nos versos ele acredita que me engano/ pensa que sabe mentir, o homem que eu amo, da canção Mais perfumado, dedicada a Thais Gulin – cujo trabalho é também incrível.

No cd, a perspectiva feminina mais que pulsa, lateja. Noite alta é o dia – espaço e tempo de uma mulher que sabe o que quer e não cai no juízo machista de ninguém. Uma protagonista avisa: eu não sou mais quem/ você deixou, amor/ vou à Lapa/ decotada/ viro todas/ beijo bem. Homoafetiva, a outra repara: a sua nova namorada, querida/ pode ser linda e safa/ mas ela não samba/ ai, ela não quebra/ ela não balança. Certeira, a antiamélia encerra: agora tá na minha hora/ eu vou passar uns tempos em Mangueira/ não chora, neguinho, não chora/ o meu coração é da estação primeira.

Joyce, com seu inseparável violão, foi uma das precursoras em dizer-cantar a mulher na primeira pessoa, em arrancar a voz passiva tão grudada no imaginário dos cancionistas. Hoje, são inúmeras, Céu, por exemplo, desconstrói a lenda do príncipe, joga-lhe um quebrante e o devolve à condição de sapo. (Na voz de Cássia, via Cazuza, o príncipe virou um chato!) Não mais apenas o universo do homem sentado a ver a garota de Ipanema passar, visto que ele pode se transformar no menino bonito que cai na dança e cai na roda… Não só a bandeja de chá de Adriana, como a percussão prato e faca de Moreno Veloso fazem ferir de morrer o homem que, por você [mulher], largava tudo/ arranjava o que fazer/  até voltaria cedo e deixava de beber// por você seria aquele que você mandasse ser/ nunca chegaria tarde com a barba por fazer.

Infectada, laialaiá e cavaquinho, contrabaixo de Alberto Continentino, despeço-me com a letra-poema que mais me pega…

aquele plano para me esquecer

que tudo isso ainda vai passar
se deslocar no tempo, esmaecer
deverá desbotar, desimportar
então seu plano para me esquecer
esqueça

que  aquele amor, aonde quer que esteja
se bulir, vai ver, inda lateja
e se, no fim, no fundo, permaneça
aquele plano para me esquecer
esqueça

Marcelo Moutinho analisou com maior riqueza de exemplos essa ótica feminina. Vale ler:

http://www.adrianacalcanhotto.com/sec_textos.php?type=5&language=pt_BR

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One Response to

  1. que ótima dica, rena
    fiquei super afim de ouvir.

    um beijo,

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