Bechara já disse que o limite da língua é a adequação, o que me faz refletir sobre interação verbal, situação comunicativa, produção de sentido, bem como compreender a língua em seu processo de funcionalidade, no qual, sem dúvida, encontram-se imbricadas a oralidade e a norma padrão. Mas eu quero aqui pensar o limite de outra forma, linha de fronteira que se estica, que se modifica, que se movimenta. Pronta para uma nova geografia. Avessa a qualquer ideia de estagnação. Posso, então, escapulir dessa nomenclatura conceitual para dizer com o verbo de fogo – a língua viva, vicejante, ponte para a construção de outras pontes. Afeita às subversões, aos desvios, aos descaminhos. Liberta das amarras da escrita normativa. Híbrida, heterogênea, dinâmica, feita/refeita na sua condição de uso. Eu quero ser/estar com a língua popular brasileira.

Língua-mãe que abarca códigos e povos diversos contrapondo-se à ideia de fronteira apregoada pelo macho-adulto-branco-ocidental e compartilhando com os indígenas a visão ampla e socializante de deslimite. Historicamente, matriarcado de tumultos e contradições, corpo que amalgama guerras-conquistas-invasões, miscigenação e sincretismo(!),  numa polifonia em que coexistem os bemóis camonianos, os sóis tupi-guarani e macro-jê, os ritmos nagô e yorubá, as dissonâncias árabes etc etc etc.

Língua-pátria: o verbo como princípio, irmandade do ato de criação com o ato de nomeação. O sagrado de nomear, de buscar uma representação (significante) e uma identificação (significado) para as coisas, fenômenos, ardis…

Língua-frátria:  flor do Lácio, o sambódromo! Mistura da demiúrgica lábia com as camadas superpostas do refletido. Alquimia entre a espontaneidade coloquial e o estranhamento pensado. Elo da fala enviesada das ruas com a arquitetura do texto, engenharia que não descansa, raps gays punks góticos…advogados burocratas jornalistas…boteco futebol novela…marajoara rendas bordados…litoral centro sertão…fala das falas das falas…distante de qualquer fixidez normativa, mas convergente com a ideia de gramaticalidade. Ruptura e tradição num compasso vibrante. Cordel e sonata. Machado e Oswald. Macabéas à mancheia.

Por Renata Cabral.

Texto para oficina de ensaio – Regina Perét

Obs.: excerto da entrevista de Evanildo Bechara, concedida a Alexandre Bandeira e homero Fonseca. In: Continente multicultural, anoII, nº13, Pernambuco, CEPE, Jan./2002, p.38

Trechos de Caetano Veloso e Waly Salomão.

Revisão – Samiri Coelho. Auxílio Luxuoso.

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3 Responses to

  1. janaina disse:

    É isso aí ,Rena!!ta´bonito!!abraço!

  2. Diego disse:

    O texto traduz tudo o que eu queria dizer, mas eu não tenho a mesma destreza que a Renata para falar. Parabéns.

  3. e da língua:
    o verbo se fez carne,
    se fez vento,
    se fez pedra,
    se fez pão,
    se fez fome,
    se fez dominação,
    e
    se fez verdade,
    se fez mentira,
    (…)
    outras são os poderes de metamorfose da língua.
    verbais ou não (rs)

    bonito de ler o texto.
    descobri seu blog hj.
    não me pergunte como, é segredo!
    e estou passeando por entre os poemas, imagens e outros textos. gostei demais!
    saudade de vc.
    bj.

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