Estranho abrigo
Renata Cabral
laranja oca na boca de um prato
branco. intacto. material.
diante da cor-convite singrando
em contraste ao branco do prato,
ele ocaso,
sonha o aroma.
descasca-a cuidadosamente para não sair o sumo na mãos,
flor em espiral
talhe ao meio, nada.
mira entorno.
aperta.
cheira.
apalpa a fruta
repete:
aperta, cheira, apalpa.
não ri.
não comenta.
dobra o corpo num soluço resoluto
e entra.
sim,
entra no oco da laranja,
ajeita-se.
aninha-se e dorme.
Edilamar nostalgia
Por Renata Cabral
os tios morreram de tuberculose na estrada do sertão.
do conflito rapadura versus megalópole, o que vinga é a fome.
lábios de murici com farinha pouca
agruras cavucam o cerne da pauta em movimento
– fios de alta tensão.
repente-metal sobre garoa.
punks góticos putas escarlates
ou eram travestis?
Edilamar nostalgia
faz promessa de buscar irmã mais moça.
aprendeu a foda com um gringo. fez escola.
conjuga bem artesanato Krenak com cocaína.
trepa de uma nota só.
alhures, dólares não visitam a margem.
carrapatos da urbe de gravata e cachecol.
epilepsias domésticas. circo estrito.
cusparada do camelô na cara do cimento. arde.
made in china.
gole de café doce ralo na esquina da Praça da Sé.
não, samba de breque.
liturgia evangélica profana prosternação.
jesus custa caro.
caixinha de chiclete.
riso aberto na boca de um Zeca sem dente.
ele é um. o outro
enreda polifonia poética formato cd.
intra-inter-hipertextual.
mza music. diversão vinte e oito reais.
arte não tem preço.
slogan da utopia.
receita do amor eterno:
por Renata Cabral
I
quando duas pêras coincidem no prato
de frutas já devoradas.
II
elas apodrecem, não se esqueçam
e não há continuidade, posto que
uma pêra e uma pêra
são apenas duas pêras.
ocre, o tempo consome o verde-
amarelo entre sardas
dissipa vertiginosamente
a branca polpa suculenta
desnudando a forma no prato
e deixando no vazio o registro da ausência,
o sinuoso arredondado já feito saudade
então os esqueletos –
caules e sementes ainda molhados
e um cheiro de fim de tarde.


