Poemas

 

Foto de Filipe Arruda

Foto de Filipe Arruda

 Estranho abrigo

    Renata Cabral

 

laranja oca na boca de um prato

branco. intacto. material.

diante da cor-convite singrando

em contraste ao branco do prato,

ele ocaso,

sonha o aroma.

 

descasca-a cuidadosamente para não sair o sumo na mãos,

flor em espiral

 

talhe ao meio, nada.

mira entorno.

aperta.

cheira.

apalpa a fruta

repete:

aperta, cheira, apalpa.

não ri.

não comenta.

dobra o corpo num soluço resoluto

e entra.

sim,

entra no oco da laranja,

ajeita-se.

aninha-se e dorme.

 

Foto de Jor Manuri

Foto de Jor Manuri

 Edilamar nostalgia

       Por Renata Cabral

 

os tios morreram de tuberculose na estrada do sertão.

do conflito rapadura versus megalópole, o que vinga é a fome.

lábios de murici com farinha pouca

agruras cavucam o cerne da pauta em movimento

– fios de alta tensão.

repente-metal sobre garoa.

punks góticos putas escarlates

ou eram travestis?

 

Edilamar nostalgia

faz promessa de buscar irmã mais moça.

aprendeu a foda com um gringo. fez escola.

conjuga bem artesanato Krenak com cocaína.

trepa de uma nota só.

alhures, dólares não visitam a margem.

carrapatos da urbe de gravata e cachecol.

epilepsias domésticas. circo estrito.

cusparada do camelô na cara do cimento. arde.

made in china.

gole de café doce ralo na esquina da Praça da Sé.

não, samba de breque.

liturgia evangélica profana prosternação.

jesus custa caro.

caixinha de chiclete.

 

riso aberto na boca de um Zeca sem dente.

ele é um. o outro

enreda polifonia poética formato cd.

intra-inter-hipertextual.

mza music. diversão vinte e oito reais.

arte não tem preço.

slogan da utopia.

  

 

Foto de Maria Flores e José d'Almeida

Foto de Maria Flores e José d'Almeida

 

 

 receita do amor eterno:

                por Renata Cabral

 

 

         I

 

quando duas pêras coincidem no prato

de frutas já devoradas.

 

 

         II

 

elas apodrecem, não se esqueçam

e não há continuidade, posto que

uma pêra e uma pêra

são apenas duas pêras.

 

ocre, o tempo consome o verde-

amarelo entre sardas

dissipa vertiginosamente

a branca polpa suculenta

 

desnudando a forma no prato

e deixando no vazio o registro da ausência,

o sinuoso arredondado já feito saudade

 

então os esqueletos –

caules e sementes ainda molhados

e um cheiro de fim de tarde.

 

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