Setembro 17, 2009

amanhã dezessete de setembro. você faz trinta e cinco anos. mas sei que ainda se lembra de quando foi ouvir o lp de Adriana Calcanhoto lá em casa… era mesmo um grande barato ouvirmos juntas A fábrica do poema e atravessarmos tardes inteiras tecendo segredos e suspiros inconfessos. insuspeitáveis? claro que não. todos sabiam dos nossos olhos pulando zíperes e constelações despedaçadas, dos nossos corpos colados no abraço de meia hora respirando nuvens e cataclismas. eu vivia sempre febril aos domingos. inventava motivos pra chegar domingo e ele se demorava preguiçoso entre os dias apressados de pagar as contas e fazer a feira e colocar ordem na casa. quando chegava, se esparramava na rede a nos balançar trechos inteiros de Waly e Augusto de Campos. lia muito a Duras na época, e sentia extrema vergonha de tudo, até do cheiro bom de avelã molhada, cravo da Índia e guimba pelos cinzeiros. tudo inexistia de repente para você passar…entre êxtase e romantismo bêbado…sua voz de arrancar o couro e fazer as moças suarem por debaixo das saias. sua voz entre flor de pêssego e cal. uma cosmogonia dilacerante. sargaço e sertão. rosa e urucum. desalinhando, trazendo fúria aos homens de bem, desconsertando. muito papai com dor de cabeça. e veras lúcias e lias… alamandas ultrapassando os limites da jardineira, numa rua triste, num bairro qualquer da cidade de Belo Horizonte.

papos intensos, e uns aguados de malva…quantas noites viradas? dentro; do avesso; às gargalhadas; taciturnas quietas ensimesmadas?… Augusto de Lima, Bahia afora… um rapaz ajeitou o peitinho falso antes do número, sorriu feito Marilyn, ele-ela lindo, lindos assim num só…  na parada de dois mil e dois um senhor sorridente, batom-glitter, me tascou um beijo na boca, entre uma cerveja e outra uma Cinderela negra, 1metro e oitenta e seis de altura, ajeitou meu cachecol azul-e-verde, sem descer do salto, e arriscou uns passos de tango. beijo livre-purpurina em plena Praça Sete, duas da tarde… as fofoqueiras de sempre do conjunto Cristina, a cochichar a vida dos outros, a coragem dos outros, a alegria dos outros, seguiram o poeta Jairo Rodrigues – meio  Clara Nunes meio Caju – avenida Afonso Pena afora. braços abertos e sorriso escancarado. ele é o cara mais autêntico e sensual que eu conheço. no quintal de sua casa, vem, eu vou pousar a mão no seu quadril, susto e delícia… fita o céu, roda

muita cachaça e poesia. caramelos e rapazes à mancheia.

e nós.

lentes caducas enferrujaram o olhar. quem mesmo consegue ver essas duas meninas, filhas de Iansã e Iemanjá? quem enxerga esse azul?

compromissos e namoradas mornas apenas adiaram  novos vendavais.

olho d’água pedra mórula ferida

aguarrás adentro

não, não se preocupe com o que é dito; o eu é ficcional, como não seria? por que explico o óbvio? eu não existo, apenas o eu aqui.  e só  porque a tarde entre edifícios traduz minha melancolia que pulsa. pulsa. hoje ouvi Cole Porter por longas horas e entendi a obsessiva condição humano-melódica de Night and Day…travessia que modula. um olho cego fixo no instante, o outro que vê. amanhã você faz trinta e cinco anos. e a trilha é So in Love, com Caetano. sempre Caê. por quê? alguns perguntam. porque ele ilumina a sala no filme de Julio Bressane. porque ele escolheu o nome Maria Bethânia. porque ele  irrita e incomoda a mediocridade quadrada da imprensa. porque ele é NeideCandolinatotal. porque ele é doce quando áspero, é tropicalista quando a juventude era de um esquerdismo radical e tolo.  porque não se apóia em nacionalismos chatos e previsíveis. porque compôs entre tantas outras Vaca Profana e O Quereres. porque Transa e Circuladô de Fulô. porque lê Clarice, ouve João. porque é contraditório e exato, prolixo e preciso. porque ele é ela, é outra sem rótulos. porque é esse cara, e ama Chico Buarque. porque canta lindamente Cais. porque cantou Cazuza e fez o Brasil ouvi-lo de outro modo, porque fez Escândalo pra Rô Rô e Gatas Extraordinárias pra  Cássia. é um grande leitor. é filho de dona Canô, é de Santo Amaro e fez David Byrne tremer as pernas no Carnegie Hall. porque é pai de Moreno, e ri um riso grande enorme sincero no rosto magro sempre no último acorde. porque toca mal o violão e faz disso um estilo, um diálogo, uma marca. porque o coração é vagabundo, porque um monge tibetano ouve a canção pela manhã. porque eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem, apenas sei de diversas harmonias bonitas, possíveis, sem juízo final.

Janaína Assis

porque você é que é o ioiô de iaiá…



Setembro 5, 2009

Acho que Baudelaire dizia-se “um homem sem profissão”. Sinto-me orbitando ao redor do que ele dissera.

O percurso díspar de minhas incursões escolares (Direito, Letras, Psicologia, Gerontologia, Contabilidade, Magistério e Eletrônica) informa um pouco sobre mim.

Profissionalmente, a sala de aula, o consultório, o escritório, a instituição bancária, a fala do palco e o Órgão Público de Cultura também depõem a meu respeito.

São muitos vieses. Daí minha confusão diletante.

Irresponsavelmente apaixonado pela palavra (escrita e emitida). Código e substância. Mínimo e exuberância. João Gilberto e Maria Bethânia. João Cabral e Waly Salomão. Caetano Veloso. A contenção e a desmesura.

Não é lindo que:

  • João Gilberto tenha se inspirado em Orlando Silva?
  • Os irmãos Campos e Décio Pignatari amem o Barroco?
  • Maria Bethânia ache Billie Holliday a expressão mais bela do canto?
  • Waly Salomão considere João Cabral o inventor da poesia no Brasil?
  • João Guimarães Rosa tenha transcriado da fala sertaneja (amêndoa pétrea) a prosa poética da angústia do tempo e do ser, que ele seja nosso Zeitgeist?

Referências tantas num corpo de subjetividade real e dialética já que eu não sou de ferro.

Palavra que cumpra a função de comover, desorientar, deixar perplexo, deixar em riste.

É a partir do que eu dissera que encontra-se o que escrevo.

Por Robson Santos


Agosto 30, 2009

Hélio Oiticica, este homem-poliedro em estado de permanente intensidade, amalgamou cosa mentale e transe instintivo genital em que a obra espelha o paroxismo do prazer (teu amor eu guardo aqui), dança do intelecto e dilaceração dionisíaca, obsessiva ideia de fundar uma nova ORDEM  frente às categorias exauridas da arte e a indignação da rebeldia ética, a quase catatonia do Quase Cinema e o júbilo epifânico (reino do SUPRASENSORIAL)  do ÉDEN, num todo múltiplo, totalidade indivisível vida/obra. Oiticica foi movido pela legenda EXPERIMENTAR O EXPERIMENTAL, tensionou a si mesmo enquanto campo imanente de possibilidades SÍSMICAS e se metamorfoseou em vertigem, voragem, redemoinho. VÓRTEX. Na linha abaixo do Equador.

A fecundidade de HO deriva da tensão pendular transgressão/construtivismo.

Nova sensibilidade explodindo a velha sintaxe conformada/conformista.

Waly Salomão


Agosto 19, 2009

Há dois anos ou mais assisti à uma aula

linda-densa-poética do professor Flávio de Castro,

e ele disse sobre como um verso e/ou um título

podem nos tocar/impactar…

Lembro-me que citou –  “trêmulo/comovido” – A lua no varal.

A sala? Gelada e insossa, não entendeu ou não se manifestou.

Num trejeito de corpo, ele driblou a situação e tocou a matéria…

Hoje deparei-me com um livro de Fiama Hasse Pais Brandão

que já se justifica pelo título; fiquei chapada…

Divido-o com você, professor.

Em cada pedra um voo imóvel.


Agosto 18, 2009

Tudo vive em mim. Tudo se entranha

Na minha tumultuada vida. E por isso

Não te enganas, homem, meu irmão,

Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.

Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam

Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,

O olhar aguado, todos eles em mim,

Porque o poeta é irmão do escondido das gentes.

Descobre além da aparência, é antes de tudo

LIVRE, e por isso conhece. Quando o poeta fala

Fala do seu quarto, não fala do palanque,

Não está no comício, não deseja riqueza

Não barganha, sabe que o ouro é sangue

Tem os olhos no espírito do homem

No possível infinito. Sabe de cada um

A própria fome. E porque é assim, eu te peço:

Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta.

O homem está vivo.

Hilda Hilst




Agosto 7, 2009

Agora é todo dia ancorar a caravela na enseada

Subir encosta acima até o cocoruto do pedregulho

E tirar chinfra com uns bons balaços-balanços de linguagem.

Por Waly Salomão


Julho 24, 2009
Tempo de desilusões, de José d'Almeida e Maria Flores

Tempo de desilusões, de José d'Almeida e Maria Flores


Julho 23, 2009

Brasil contra a pedofilia


Julho 17, 2009

Compreensão de santo


Todos os santos têm o sexo amputado

E cansados de suster a própria boca

maldizem a fome enquanto comem

(De gula, assaz, e sempre estarão salvos)

Sabem ótimo o benefício de dar-se

mas em ânsias de céu, erram as doações pelo ar

(Em dar assim, mais se exercem, mais se guardam)

O santo é só um ângulo do homem

Como só vê de um lado, enviesado

anda em círculos, se perseguindo

doida figura que nas costas procurasse o seu sentido todo

(Buscando o ausente, em Deus, faz-se íntegro e pouco)

Por Capinam


Julho 11, 2009

Qual será o absurdo de hoje que será a verdade de amanhã?

Por Alfred North Whitehead (1925)