Cartas

Lygia,

hora zero. plural. enxame de copos vazios sobre o balcão. eles não voam. nem eu. mas é possível ouvir seus restos. açúcar velho, asas quebradas. de abrir o livro, um risco. alimento que te escapa. de penetrar a lâmina da vida em compota, uma dor. sem sangue. tão escondida, tão silêncio, que ‘tá na cara. a cicuta da palavra vida. abre. ave. eles não sabem. não há tempo. eles sabem muito pouco. sabem-se muito pouco. eles quem? nós. que nos fizemos assim. numerais. uma traça. daqui a pouco o dia.

aspereza. duas da madrugada. toma essa canção dentro da caixa. três comprimidos, meu cigarro. toda essa espuma. toma essa palavra que é queixa. esfrega no seu corpo. feito música.

quase luz. centro da sala. cd guarda muito. guarda veludo. era digital. uma conspiração dentro da nota.

seus olhos – verbete musicoespiral – me olham pela ótica da página em branco. que me vigia a quantidade de café, o desenho dos faróis. avisam aquela voz entre flor de pêssego e cal. uma cosmogonia dilacerante. sargaço e sertão. rosa e urucum.

hoje eu queria ser Matisse e pintar esse azul. que sangra. não. talvez o grito, eu pintaria o grito. a mulher sem braço a rua sem fim, a esquina e seu cheiro de urina velha. eu queria ser a lua, não a lua parnaso, de luz fria, uma lua quente erotizada. carne branca e suas manchas. seus vincos e fendas. uma ardência por dentro da altura, da alvura descarnada. e sombra.

agora sete. eles, avisos luminosos. que se apagam com a manhã. extratos-telefonemas-britadeiras. explosão com hora marcada no motel.


Matisse

vai triste canção

eu nem nada. outras tantas crianças mortas na Cisjordânia. torturas pautadas no D(eus) branco ocidental. valium craque chip. patologia autenticada. patente no Japão.

poeira-rastro na faixa dos lps. vide agulha velha.

cds à mancheia.

i-pod, mp4… tecnologia de releituras saturadas.

muito acorde açúcar blasé. pose-mix, vídeo clip.

mas eu comecei querendo ser Matisse…

por que não grudar na tela do dia esse azul escandalizado?

eles não eles não enxergam azul,

não não eu não ´tô falando de azul fazer-um-churrasquinho,

eu falo desse escândalo

guardado na tela, olhos de Matisse.

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